Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT17 2022 (nº 4)
[Vida literária]
Aqueles que fazem versos e já atingiram a idade madura costumam receber cartas de outros que também os fazem, mas estão na casa dos vinte. Parece que esse é um dos prêmios (muito discutíveis) de envelhecer: ser solicitado pelos mais novos a dar opiniões sobre os vagidos do talento. O moço apresenta-se confiante, às vezes entusiástico, sempre respeitoso; o "mestre" responde benévolo, paciente, minucioso, interessado em pormenores biográficos, ocultando sua vaidade sob um verniz de simpatia: "Escreva sempre, meu filho." A isto se chama vida literária.
Sendo a literatura fenômeno socializante por excelência, contudo permanece fenômeno individual quanto à produção. E eu vos pergunto: pode a experiência do mais idoso servir à hesitação do jovem, dissolvê-la em certeza, encaminhá-la a rumo certo? Haverá utilidade nessa conversa de gerações?
É certo que cinco ou dez anos depois a receita do mais velho foi esquecida e o mestre com ela. Sucede também que após esse lapso de tempo o mestre seja, não esquecido, mas negado. Ataca-se o mestre, descobre-se que ele o não é. Noventa (que digo? cem por cento) de nossas admirações da adolescência resolvem-se em indiferença, vergonha ou desprezo. Na força do adulto, vinga-se o homem das debilidades do período de crescimento físico e intelectual, negando o que adorara. Os mestres de poesia não escapam a essa contingência, e ao escreverem uma "carta ao jovem poeta" deveriam meditar bem na escolha das palavras e no prazo de validade do sortilégio.
Mas o pessimismo da verificação não deve secar no homem de cinquenta o terno interesse pelo rapaz de vinte. O admirador juvenil é tão autêntico e honesto quanto o lapidador de vinte e cinco ou trinta. Cada idade tem sua moral e sua sensibilidade.
Respeitam-se plenamente as normas de concordância verbal na frase:
- ANão se admitem que os jovens poetas passem de repente a desonrar sua admiração inicial pelos poetas mais velhos.
- BAos jovens poetas não sucede permanecerem fiéis à admiração já demonstrada pelos poetas mais velhos. (alternativa correta)
- CCaberiam aos moços talentosos aproveitar melhor as boas lições que lhes foram passadas pelos velhos mestres.
- DHaveria de passar muitos anos para que aqueles jovens poetas recuperassem seu respeito pelos mestres de outrora.
- ERecomendam-se aos críticos que não levem em conta os ardores fortes e voluntariosos dos jovens poetas.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Concordância verbal é a regra que faz o verbo (a ação) combinar com o sujeito (quem pratica a ação) em número (singular ou plural) e pessoa (eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas). Um ponto crucial é que, quando o sujeito de um verbo é uma oração (uma frase com verbo), esse verbo principal deve ficar sempre no singular.
(A) Incorreta: O sujeito do verbo "admitem" é a oração "que os jovens poetas passem de repente a desonrar sua admiração inicial pelos poetas mais velhos". Quando o sujeito é uma oração subordinada substantiva subjetiva, o verbo principal (aqui, "admitir" na voz passiva sintética com "se") deve permanecer no singular. O correto seria "Não se admite que...".
(B) Correta: O sujeito do verbo "sucede" é a oração reduzida de infinitivo "permanecerem fiéis à admiração já demonstrada pelos poetas mais velhos". Quando o sujeito é uma oração (seja ela desenvolvida ou reduzida), o verbo principal ("suceder") deve ficar no singular. "Sucede" está corretamente no singular. "Aos jovens poetas" é um objeto indireto, não o sujeito.
(C) Incorreta: O sujeito do verbo "caberiam" é a oração reduzida de infinitivo "aproveitar melhor as boas lições que lhes foram passadas pelos velhos mestres". Assim como nas alternativas A e B, quando o sujeito é uma oração, o verbo principal deve ficar no singular. O correto seria "Caberia aos moços talentosos aproveitar...".
(D) Incorreta: O verbo "haver" está funcionando como auxiliar do verbo "passar". Nesse caso, o verbo "haver" (e, consequentemente, o verbo principal "passar") deve concordar com o sujeito de "passar", que é "muitos anos". Portanto, o correto seria "Haveriam de passar muitos anos para que...". A armadilha da banca é que o verbo "haver" é impessoal (fica no singular) apenas quando significa "existir", "acontecer" ou "ocorrer" e não tem sujeito explícito; quando é auxiliar, ele concorda com o sujeito do verbo principal.
(E) Incorreta: O sujeito do verbo "recomendam" é a oração "que não levem em conta os ardores fortes e voluntariosos dos jovens poetas". Quando o sujeito é uma oração subordinada substantiva subjetiva, o verbo principal (aqui, "recomendar" na voz passiva sintética com "se") deve permanecer no singular. O correto seria "Recomenda-se aos críticos que...".
Fonte: FCC TRT17 2022 Conhecimentos Comuns (Analista - Área Judiciária) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.