Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT17 2022 (nº 2)
[Vida literária]
Aqueles que fazem versos e já atingiram a idade madura costumam receber cartas de outros que também os fazem, mas estão na casa dos vinte. Parece que esse é um dos prêmios (muito discutíveis) de envelhecer: ser solicitado pelos mais novos a dar opiniões sobre os vagidos do talento. O moço apresenta-se confiante, às vezes entusiástico, sempre respeitoso; o "mestre" responde benévolo, paciente, minucioso, interessado em pormenores biográficos, ocultando sua vaidade sob um verniz de simpatia: "Escreva sempre, meu filho." A isto se chama vida literária.
Sendo a literatura fenômeno socializante por excelência, contudo permanece fenômeno individual quanto à produção. E eu vos pergunto: pode a experiência do mais idoso servir à hesitação do jovem, dissolvê-la em certeza, encaminhá-la a rumo certo? Haverá utilidade nessa conversa de gerações?
É certo que cinco ou dez anos depois a receita do mais velho foi esquecida e o mestre com ela. Sucede também que após esse lapso de tempo o mestre seja, não esquecido, mas negado. Ataca-se o mestre, descobre-se que ele o não é. Noventa (que digo? cem por cento) de nossas admirações da adolescência resolvem-se em indiferença, vergonha ou desprezo. Na força do adulto, vinga-se o homem das debilidades do período de crescimento físico e intelectual, negando o que adorara. Os mestres de poesia não escapam a essa contingência, e ao escreverem uma "carta ao jovem poeta" deveriam meditar bem na escolha das palavras e no prazo de validade do sortilégio.
Mas o pessimismo da verificação não deve secar no homem de cinquenta o terno interesse pelo rapaz de vinte. O admirador juvenil é tão autêntico e honesto quanto o lapidador de vinte e cinco ou trinta. Cada idade tem sua moral e sua sensibilidade.
No último parágrafo do texto, adverte-se que
- Aos malogrados impulsos da juventude devem ser considerados anomalias compreensíveis.
- Bos jovens exigentes devem admitir que é natural haver maior sinceridade entre os velhos.
- Cas fases da vida precisam ser reconhecidas pelas características que lhes são próprias. (alternativa correta)
- Dé preciso admitir o impulso pessimista de que se nutrem os mais velhos diante dos jovens.
- Eas diversas idades humanas expõem divergências morais efetivamente inaceitáveis.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O conceito-chave aqui é a relatividade das perspectivas e a validade inerente a cada fase da vida. O texto sugere que não se deve julgar uma idade pela régua de outra, mas sim reconhecer que cada etapa tem suas próprias características e valores.
- A) Incorreta: O texto não classifica os impulsos juvenis como "malogrados" (fracassados) ou "anomalias"; pelo contrário, afirma que o "admirador juvenil é tão autêntico e honesto".
- B) Incorreta: A frase "O admirador juvenil é tão autêntico e honesto quanto o lapidador de vinte e cinco ou trinta" contradiz a ideia de que há maior sinceridade entre os velhos, sugerindo uma autenticidade equivalente, mas de naturezas diferentes.
- (C) Correta: Esta alternativa resume perfeitamente a última frase do parágrafo: "Cada idade tem sua moral e sua sensibilidade." Isso significa que as diferentes fases da vida possuem características próprias que devem ser reconhecidas e compreendidas em seu contexto.
- D) Incorreta: O parágrafo começa com "Mas o pessimismo da verificação não deve secar no homem de cinquenta o terno interesse pelo rapaz de vinte", indicando que o pessimismo não deve prevalecer, e não que ele deva ser admitido como um impulso a ser nutrido.
- E) Incorreta: Embora o texto mencione "divergências morais" implicitamente ao dizer que "Cada idade tem sua moral", ele não as classifica como "efetivamente inaceitáveis". O tom geral do parágrafo é de aceitação e compreensão ("terno interesse", "tão autêntico e honesto").
Fonte: FCC TRT17 2022 Conhecimentos Comuns (Analista - Área Judiciária) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.