Questão nº 51
Questão de Psiquiatria · FCC TJ-MA 2019 (nº 51)
Atenção: Considere o caso clínico a seguir para responder às questões de números 50 a 53.
J.A., 24 anos, solteira, estudante universitária de engenharia, apresenta quadro importante de agitação, acompanhada de aceleração do pensamento, fala rápida, com dificuldade de permanecer no mesmo assunto. Quando questionada, paciente fala sentir-se triste e desanimada e pede um remédio para essa tristeza, chegando a rir e chorar na entrevista. A família nega antecedentes de quadros depressivos no passado. Informa que nas últimas 2 semanas tem dormido pouco, passando a noite acordada querendo jogar videogame de dança em casa. No último final de semana foi ao shopping e gastou quase 10 mil reais em compras para os amigos da faculdade. Conta que adora sair “para a balada” e que tem bebido bastante (“não me lembro bem do que ocorreu nas noites passadas”). Paciente apresenta-se, ao exame psíquico, consciente, orientada, atenção preservada, porém, com distratibilidade frente a estímulos; por vezes, chora na entrevista, apresentando grande labilidade emocional, pensamento com perda da direção e presença de arborizações; crítica prejudicada quanto ao estado mórbido. Paciente vem saindo muito à noite e postando fotos provocativas nas redes sociais. Diz querer “namorar muito”. Familiar nega conhecimento de uso de drogas ilícitas. Informa que paciente iniciou uso de lisdexanfetamina (50 mg) há cerca de 2 meses devido à dificuldade de estudar para provas e que o “curso de engenharia era muito puxado e ela sentia ter déficit de atenção e não conseguir se concentrar o suficiente para acompanhar o curso”. Nos últimos semestres, familiar refere que J.A. vinha sobrecarregada e se dizia “exausta” e que o uso da medicação ajudou “a dar conta da faculdade”. Familiar informa que tem tido dificuldade de manter a paciente em casa e que, por vezes, ela se mostra agressiva quando alguém tenta impedir que saia.
Um importante diagnóstico diferencial para esse caso seria:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 50, questão nº 52, questão nº 53.
- ADepressão bipolar secundária a burnout.
- BTranstorno de humor induzido por medicação (anfetamina). (alternativa correta)
- CPsicose esquizofrênica.
- DTranstorno dissociativo (amnésia lacunar).
- ESíndrome mental orgânica: delirium anticolinérgico.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Um transtorno de humor induzido por medicação ocorre quando os sintomas de humor (como mania, hipomania ou depressão) surgem diretamente devido ao uso de uma substância ou medicamento, e não seriam explicados por um transtorno de humor primário.
- (A) Incorreta: "Burnout" é um estado de exaustão, não uma causa direta de um episódio bipolar. Embora a paciente estivesse sobrecarregada, o início dos sintomas após a medicação é o fator mais relevante. Além disso, a família nega antecedentes depressivos, o que torna a "depressão bipolar" como diagnóstico primário menos provável neste momento.
- (B) Correta: A paciente iniciou o uso de lisdexanfetamina (um estimulante) há 2 meses e, após isso, desenvolveu um quadro com sintomas mistos de mania (agitação, aceleração do pensamento, gastos excessivos, diminuição da necessidade de sono, comportamento de risco) e depressão (tristeza, desânimo, choro). Estimulantes são conhecidos por induzir episódios de mania ou hipomania, especialmente em pessoas vulneráveis. A ausência de histórico prévio de episódios de humor reforça a causalidade da medicação.
- (C) Incorreta: Embora haja alguma desorganização do pensamento ("perda da direção e presença de arborizações"), os sintomas predominantes são de alteração do humor, energia e comportamento, sem evidências claras de delírios ou alucinações típicas de psicose esquizofrênica.
- (D) Incorreta: A "amnésia lacunar" mencionada ("não me lembro bem do que ocorreu nas noites passadas") é mais provavelmente atribuída ao consumo excessivo de álcool e ao estado de desinibição e distratibilidade da mania/hipomania, e não a um transtorno dissociativo.
- (E) Incorreta: A paciente está consciente e orientada, e o quadro tem características de um transtorno de humor, não de um delirium (que envolve alteração aguda da atenção e consciência global). Além disso, a lisdexanfetamina é um estimulante, não um agente anticolinérgico.
Fonte: FCC TJ-MA 2019 Analista Judiciário - Psiquiatra (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.