Questão nº 9
Questão de Língua Portuguesa · FCC TJ-CE 2022 (nº 9)
Atenção: Para responder às questões de números 7 a 12, baseie-se no texto abaixo.
Brincadeiras de criança
Entre as crianças daquele tempo, na hora de formar grupos pra brincar, alguém separava as sílabas enquanto ia rodando e apontando cada um com o dedo: “Lá em ci-ma do pi-a-no tem um co-po de ve-ne-no, quem be-beu mor-reu, o cul-pa-do não fui eu”. Piano? Qual? Veneno? Por quê? Morreu? Quem? Tratava-se de uma “parlenda”*, como aprendi bem mais tarde, mas podem chamar de surrealismo, enigma, senha mágica, charada...
Mesmo as nossas cartilhas de alfabetização tinham seus mistérios: uma das lições iniciais era a frase “A macaca é má”, com a ilustração de uma macaquinha espantada e a exploração repetida das sílabas “ma” e “ca”. Ponto. Nenhuma história? Por que era má a macaquinha? Depois aprendi que “má macaca” é um parequema**. A gente vai ficando sabido e ignorando o essencial. O que, afinal, teria aprontado a má macaquinha da cartilha?
A grande poeta Orides Fontela usou como epígrafe de um de seus livros de alta poesia (Helianto, 1973) esta popular quadrinha de cantiga de roda:
“Menina, minha menina,
Faz favor de entrar na roda
Cante um verso bem bonito
Diga adeus e vá-se embora”Ou seja: brincando, brincando, eis a nossa vida resumida, em meio aos densos poemas de Orides, a nossa vida, em que cada um de nós se apresenta aos outros, busca dizer com capricho a que veio no tempinho que teve e...adeus. Podem soar fundo as palavras mais inocentes: “ir-se embora”, depois da viva roda... E ir-se embora sem saber mais nada daquele copo de veneno em cima do piano ou da macaquinha da cartilha, eternamente condenada a ser má. Ir-se embora já ouvindo bem ao longe as vozes das crianças cantando na roda.
* parlenda: palavreado utilizado em brincadeiras infantis ou jogos de memorização.
** parequema: repetição de sons ou da sílaba final de uma palavra, no início da palavra seguinte.
Considerando o contexto, na frase A gente vai ficando sabido e ignorando o essencial, a relação entre os segmentos sublinhados deve ser assim entendida:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 7, questão nº 8, questão nº 10, questão nº 11, questão nº 12.
- Ao saber progressivo é causa de uma ignorância essencial.
- Bficar sabido é uma condição para eliminar os mistérios.
- Cadquirir sabedoria é consequência de desistir dos enigmas.
- Dà proporção que mais se sabe, menos se esclarecem as superstições.
- Eo saber progressivo é concomitante com o permanecer ignorando o que mais importa. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Conjunções como "e" podem expressar não apenas adição, mas também outras relações lógicas, como simultaneidade ou contraste, dependendo do contexto em que são usadas. É fundamental analisar o sentido global da frase para identificar a relação correta.
- A) Incorreta: A relação não é de causa. O texto não sugere que o saber provoca a ignorância, mas que eles ocorrem em paralelo.
- B) Incorreta: A frase indica que, ao ficar sabido, a pessoa ignora o essencial, o que vai na contramão de "eliminar os mistérios".
- C) Incorreta: A sabedoria não é apresentada como consequência de desistir dos enigmas; pelo contrário, o texto lamenta que, ao "ficar sabido", se perca a capacidade de questionar os enigmas.
- D) Incorreta: A alternativa introduz o termo "superstições", que não está presente no texto, e não reflete a ideia de "ignorando o essencial".
- E) Correta: A conjunção "e" liga duas ações que acontecem ao mesmo tempo, ou seja, são concomitantes. À medida que se adquire um tipo de conhecimento ("vai ficando sabido"), simultaneamente se perde ou se deixa de lado a curiosidade ou a percepção do que é mais profundo ou misterioso ("ignorando o essencial"). "O que mais importa" é uma paráfrase adequada para "o essencial".
Fonte: FCC TJ-CE 2022 Analista Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.