Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TJ-CE 2022 (nº 2)
Atenção: Para responder às questões de números 1 a 6, baseie-se no texto abaixo.
O exercício da crônica
Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um romancista, na qual este é levado pelas personagens e situações que criou.
Alguns cronistas escrevem de maneira simples e direta, sem caprichar demais no estilo, mas enfeitando-o aqui e ali desses pequenos achados que são sua marca registrada. Outros, de modo lento e elaborado, que o leitor deixa para mais tarde como um convite ao sono. Outros ainda, e constituem a maioria, “tacam o peito” na máquina de escrever e cumprem o dever cotidiano da crônica como uma espécie de desespero, numa atitude de “ou vai ou racha”.
Há os eufóricos, cuja prosa procura sempre infundir vida e alegria em seus leitores; e há os tristes, que escrevem com o fito exclusivo de desanimar a gente não só quanto à vida, como quanto à condição humana e às razões de viver. Há também os modestos, que ocultam cuidadosamente a própria personalidade atrás do que dizem; em contrapartida, os vaidosos castigam no pronome da primeira pessoa e colocam-se como a personagem principal de todas as situações.
Como se diz que é preciso um pouco de tudo para fazer um mundo, todos esses “marginais da imprensa”, por assim dizer, têm o seu papel a cumprir. Uns afagam vaidades, outros as espicaçam; este é lido por puro deleite, aquele por puro vício. Mas uma coisa é certa: o público não dispensa a crônica, e o cronista afirma-se cada vez mais como o cafezinho quente logo pela manhã.
Coloque-se porém, ó leitor, ingrato leitor, no papel do cronista. Dias há em que, positivamente, a crônica “não baixa”. O cronista levanta-se, senta-se, levanta de novo, chega à janela, põe um disco na vitrola, dá um telefonema, relê crônicas passadas em busca de inspiração – e nada. Aí então, se ele é cronista de verdade, ele se pega pela gola e diz: “Vamos, escreve, ó mascarado! Escreve uma crônica sobre essa cadeira que está à sua frente, e que ela seja bem feita e divirta seus leitores!” E o negócio sai de qualquer maneira.
O autor da crônica, ao se valer da expressão
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 6.
- A“prosa fiada” (1º parágrafo), qualifica uma linguagem que constitui o desafio maior de um cronista que deseja se passar por um romancista.
- B“tacam o peito” (2º parágrafo), refere-se ao modo como os cronistas se aproveitam de uma inspiração sublime para escrever.
- C“ou vai ou racha” (2º parágrafo), alude à autodeterminação que um cronista deve ter em sua específica rotina de escritor. (alternativa correta)
- D“marginais da imprensa” (4º parágrafo), alude a seus colegas de ofício que desvirtuam a dignidade do jornalismo.
- E“não baixa” (5º parágrafo), considera o caso em que o tema encontrado pelo cronista lhe parece erudito demais para ser desenvolvido.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Interpretar o sentido de uma expressão em um texto significa entender o que ela significa naquele contexto específico, considerando as palavras e ideias que a cercam, e não apenas seu sentido literal ou dicionarizado.
- A) Incorreta: "Prosa fiada" refere-se à prosa que precisa ser produzida continuamente, como um fio, que é o desafio do cronista, em contraste com a prosa do romancista que é "levado" pela história. Não se trata de querer se passar por romancista.
- B) Incorreta: "Tacam o peito" (ou "tacam o pau") é uma expressão popular que significa fazer algo com impetuosidade, por obrigação ou desespero, sem muita reflexão ou inspiração. O texto associa isso a "cumprem o dever cotidiano... como uma espécie de desespero", o oposto de inspiração sublime.
- C) Correta: A expressão "ou vai ou racha" denota uma situação de tudo ou nada, de decisão firme e de persistência, onde não há alternativa a não ser fazer acontecer. No contexto, os cronistas, mesmo sem inspiração ("desespero"), precisam cumprir a tarefa diária, o que exige autodeterminação para escrever.
- D) Incorreta: "Marginais da imprensa" é usado entre aspas e com a ressalva "por assim dizer", indicando um uso irônico ou jocoso. O autor não os acusa de desvirtuar o jornalismo, mas afirma que "têm o seu papel a cumprir", sugerindo que são importantes, mesmo estando à margem do jornalismo mais "sério". A armadilha aqui é o sentido negativo comum da palavra "marginal", que é neutralizado pelo contexto.
- E) Incorreta: "Não baixa" é uma expressão que significa que a inspiração, a ideia ou a fluidez da escrita não surge, não vem. Não se refere à dificuldade com um tema por ser "erudito demais", mas sim à ausência de qualquer tema ou à dificuldade de iniciar a escrita.
Fonte: FCC TJ-CE 2022 Analista Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.