Questão nº 14
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-RS 2017 (nº 14)
Sem privacidade
Ainda é possível ter privacidade em meio a celulares, redes sociais e dispositivos outros das mais variadas conexões? Os mais velhos devem se lembrar do tempo em que era feio “ouvir conversa alheia”. Hoje é impossível transitar por qualquer espaço público sem recolher informações pessoais de todo mundo. Viajando de ônibus, por exemplo, acompanham-se em conversas ao celular brigas de casal, reclamações trabalhistas, queixas de pais a filhos e vice-versa, declarações românticas, acordo de negócios, informações técnicas, transmissão de dados e um sem-número de situações de que se é testemunha compulsória. Em clara e alta voz, lances da vida alheia se expõem aos nossos ouvidos, desfazendo-se por completo a fronteira que outrora distinguia entre a intimidade e a mais aberta exposição.
Nas redes sociais, emoções destemperadas convivem com confissões perturbadoras, o humor de mau gosto disputa espaço com falácias políticas – tudo deixando ver que agora o sujeito só pode existir na medida em que proclama para o mundo inteiro seu gosto, sua opinião, seu juízo, sua reação emotiva. É como se todos se obrigassem a deixar bem claro para o resto da humanidade o sentido de sua existência, seu propósito no mundo. A discrição, a fala contida, o recolhimento íntimo parecem fazer parte de uma civilização extinta, de quando fazia sentido proteger os limites da própria individualidade.
Em meio a tais processos da irrestrita divulgação da personalidade, as reticências, a reflexão silenciosa e o olhar contemplativo surgem como sintomas problemáticos de alienação. Impõe-se um tipo de coletivismo no qual todos se obrigam a se falar, na esperança de que sejam ouvidos por todos. Nesse imenso ruído social, a reclamação por privacidade é recebida como o mais condenável egoísmo. Pretender identificar-se como um sujeito singular passou a soar como uma provocação escandalosa, em tempos de celebração do paradigma público da informação.
Está correto o emprego dos elementos sublinhados em:
- AAs confissões perturbadoras às quais aprendemos a conviver não respeitam nosso direito à um mínimo de privacidade.
- BHouve tempos onde era feio e indiscreto ouvir conversas alheias; hoje, propaga-se as falas em voz alta por toda parte.
- CNão faltava a aquelas antigas conversas um tom de intimidade, tão raro hoje entre os que ainda lhe são capazes.
- DO olhar contemplativo, no qual se dedicavam os viajantes de ônibus, já não flue pelas janelas.
- EO vício das conexões, cujas malhas nos envolvem a todos, não é de todo mau, segundo os otimistas. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Conceito-chave: Pronome relativo é a palavra que substitui um termo já dito (antecedente) e o liga à oração seguinte. Para acertar, verifique se o pronome concorda com o antecedente e se a regência verbal/nominal está correta. “Cujo” indica posse e concorda com o que vem depois; “mau” (adjetivo) opõe-se a “bom”, enquanto “mal” (advérbio) opõe-se a “bem”.
- (A) Incorreta: “às quais” exige verbo “conviver” com preposição “com” (conviver com algo), então o correto seria “com as quais”; além disso, “direito à” exige artigo + preposição “a” (direito a algo), mas “um mínimo” pede só “a” sem crase: “direito a um mínimo”.
- (B) Incorreta: “onde” só serve para lugar físico; para tempo, use “em que” ou “quando”. Além disso, “propaga-se” com sujeito “as falas” (plural) exige verbo no plural: “propagam-se”.
- (C) Incorreta: “a aquelas” é erro de crase (o correto é “àquelas”, pois há preposição “a” + pronome “aquelas”); “lhe” não pode ser usado como objeto direto de “são capazes” – o correto seria “deles” (capazes de algo).
- (D) Incorreta: “no qual” exige regência de “dedicar-se a” (dedicar-se a algo), então o correto é “ao qual”; além disso, “flue” não existe – o verbo é “flui” (fluir).
- (E) Correta: “cujas” concorda com “malhas” (feminino plural) e indica posse (as malhas do vício); “mau” é adjetivo oposto a “bom”, correto após “não é de todo”. A armadilha aqui é trocar “mau” por “mal” (advérbio), mas “é” exige predicativo adjetivo.
Fonte: FCC DPE-RS 2017 Conhecimentos Comuns (Analista) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.