Questão nº 13
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-RS 2017 (nº 13)
Sem privacidade
Ainda é possível ter privacidade em meio a celulares, redes sociais e dispositivos outros das mais variadas conexões? Os mais velhos devem se lembrar do tempo em que era feio “ouvir conversa alheia”. Hoje é impossível transitar por qualquer espaço público sem recolher informações pessoais de todo mundo. Viajando de ônibus, por exemplo, acompanham-se em conversas ao celular brigas de casal, reclamações trabalhistas, queixas de pais a filhos e vice-versa, declarações românticas, acordo de negócios, informações técnicas, transmissão de dados e um sem-número de situações de que se é testemunha compulsória. Em clara e alta voz, lances da vida alheia se expõem aos nossos ouvidos, desfazendo-se por completo a fronteira que outrora distinguia entre a intimidade e a mais aberta exposição.
Nas redes sociais, emoções destemperadas convivem com confissões perturbadoras, o humor de mau gosto disputa espaço com falácias políticas – tudo deixando ver que agora o sujeito só pode existir na medida em que proclama para o mundo inteiro seu gosto, sua opinião, seu juízo, sua reação emotiva. É como se todos se obrigassem a deixar bem claro para o resto da humanidade o sentido de sua existência, seu propósito no mundo. A discrição, a fala contida, o recolhimento íntimo parecem fazer parte de uma civilização extinta, de quando fazia sentido proteger os limites da própria individualidade.
Em meio a tais processos da irrestrita divulgação da personalidade, as reticências, a reflexão silenciosa e o olhar contemplativo surgem como sintomas problemáticos de alienação. Impõe-se um tipo de coletivismo no qual todos se obrigam a se falar, na esperança de que sejam ouvidos por todos. Nesse imenso ruído social, a reclamação por privacidade é recebida como o mais condenável egoísmo. Pretender identificar-se como um sujeito singular passou a soar como uma provocação escandalosa, em tempos de celebração do paradigma público da informação.
Considere as seguintes orações:
I. Perdeu-se a antiga privacidade.
II. No lugar da antiga privacidade está uma irrestrita conectividade.
III. Não há mais recolhimento íntimo duradouro.
Essas orações articulam-se num período cuja redação é clara, correta e coesa em:
- AComo não há mais recolhimento íntimo e duradouro, já que a antiga privacidade deu lugar à irrestrita conectividade, ei-la perdida.
- BNão havendo mais a antiga privacidade, sem recolhimento íntimo duradouro, está em seu lugar a irrestrita conectividade.
- CUma vez perdida a antiga privacidade, conquanto em seu lugar esteja uma irrestrita conectividade, já não há mais recolhimento íntimo duradouro.
- DO recolhimento íntimo duradouro, perdeu-se com a antiga privacidade, em cujo lugar agora é ocupado por uma irrestrita conectividade.
- EJá não há recolhimento íntimo duradouro, visto que no lugar da antiga privacidade está agora uma irrestrita conectividade. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Coesão é a ligação harmoniosa entre as ideias de um texto, feita por conectivos que deixam clara a relação de causa, consequência, oposição etc. Aqui, a relação entre as orações é de causa e consequência: a perda da privacidade e a conectividade excessiva explicam por que não há mais recolhimento íntimo.
- (A) Incorreta: O período é confuso e redundante; “ei-la perdida” é um resumo desnecessário e quebra a fluidez, além de “já que” e “como” juntos criarem uma relação causal duplicada e mal organizada.
- (B) Incorreta: A ordem das ideias fica truncada: “sem recolhimento íntimo duradouro” parece solto, e “está em seu lugar” não deixa claro o que está no lugar do quê, gerando ambiguidade.
- (C) Incorreta: O conectivo “conquanto” indica concessão (oposição), mas aqui a conectividade é consequência da perda da privacidade, não uma exceção a ela — a relação lógica está invertida.
- (D) Incorreta: A construção “em cujo lugar agora é ocupado” é um erro de regência e redundância (“cujo lugar” já indica posse, e “é ocupado” repete a ideia); além disso, a vírgula após “duradouro” separa incorretamente o sujeito do verbo.
- (E) Correta: O conectivo “visto que” introduz uma causa (a conectividade no lugar da privacidade) que explica a consequência (não há mais recolhimento íntimo). A ordem direta e a pontuação correta garantem clareza e coesão.
Fonte: FCC DPE-RS 2017 Conhecimentos Comuns (Analista) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.