Questão nº 12
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-RS 2017 (nº 12)
Sem privacidade
Ainda é possível ter privacidade em meio a celulares, redes sociais e dispositivos outros das mais variadas conexões? Os mais velhos devem se lembrar do tempo em que era feio “ouvir conversa alheia”. Hoje é impossível transitar por qualquer espaço público sem recolher informações pessoais de todo mundo. Viajando de ônibus, por exemplo, acompanham-se em conversas ao celular brigas de casal, reclamações trabalhistas, queixas de pais a filhos e vice-versa, declarações românticas, acordo de negócios, informações técnicas, transmissão de dados e um sem-número de situações de que se é testemunha compulsória. Em clara e alta voz, lances da vida alheia se expõem aos nossos ouvidos, desfazendo-se por completo a fronteira que outrora distinguia entre a intimidade e a mais aberta exposição.
Nas redes sociais, emoções destemperadas convivem com confissões perturbadoras, o humor de mau gosto disputa espaço com falácias políticas – tudo deixando ver que agora o sujeito só pode existir na medida em que proclama para o mundo inteiro seu gosto, sua opinião, seu juízo, sua reação emotiva. É como se todos se obrigassem a deixar bem claro para o resto da humanidade o sentido de sua existência, seu propósito no mundo. A discrição, a fala contida, o recolhimento íntimo parecem fazer parte de uma civilização extinta, de quando fazia sentido proteger os limites da própria individualidade.
Em meio a tais processos da irrestrita divulgação da personalidade, as reticências, a reflexão silenciosa e o olhar contemplativo surgem como sintomas problemáticos de alienação. Impõe-se um tipo de coletivismo no qual todos se obrigam a se falar, na esperança de que sejam ouvidos por todos. Nesse imenso ruído social, a reclamação por privacidade é recebida como o mais condenável egoísmo. Pretender identificar-se como um sujeito singular passou a soar como uma provocação escandalosa, em tempos de celebração do paradigma público da informação.
Perdeu-se a antiga privacidade, enterramos a antiga privacidade sob os conectores modernos, tornamos esses conectores modernos nossos deuses implacáveis, sob o comando desses conectores modernos trocamos escandalosamente todas as informações mais pessoais.
Evitam-se as viciosas repetições do período acima substituindo-se os elementos sublinhados, na ordem dada, por:
- Aenterramo-la − tornamo-los − sob cujo comando (alternativa correta)
- Benterramos-lhe − tornamo-lhes − sob cujo comando
- Centerramo-la − os tornamos − sob o qual comando
- Da enterramos − tornamos-lhes − sob o comando deles
- Eenterramo-lhe − lhes tornamos − sob o comando dos quais
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Conceito-chave: Pronomes oblíquos átonos (o, a, os, as, lhe, lhes) substituem termos já citados para evitar repetição. A regra de ouro: o/a/os/as substituem objeto direto (sem preposição), e lhe/lhes substituem objeto indireto (com preposição). Além disso, quando o verbo termina em -mos, o pronome o/os vira -lo/-los (ex.: enterramos + o = enterramo-lo).
- (A) Correta:
enterramos + a (privacidade)=enterramo-la(objeto direto, verbo terminado em-mos);tornamos + os (conectores)=tornamo-los(objeto direto, mesma regra);sob o comando desses conectores=sob cujo comando(pronome relativocujoindica posse, sem repetir o substantivo). - (B) Incorreta:
enterramos-lheetornamo-lhesusamlhe/lhespara objeto direto, o que é erro —lhesó serve para objeto indireto (ex.: "dei-lhe um livro" = dei a ele). - (C) Incorreta:
os tornamosestá na ordem errada (o correto étornamo-los, com ênclise após verbo terminado em-mos);sob o qual comandoé construção inexistente — o correto ésob cujo comando. - (D) Incorreta:
a enterramosquebra a ênclise obrigatória (verbo terminado em-mosexigeenterramo-la);tornamos-lhesrepete o erro de objeto indireto;sob o comando delesé repetitivo e menos elegante quecujo. - (E) Incorreta:
enterramo-lheelhes tornamoserram na escolha do pronome (objeto direto não aceitalhe);sob o comando dos quaisé correto em si, mas já invalida a alternativa pelos erros anteriores.
Armadilha da banca (distrator mais tentador, B): A pegadinha clássica é achar que lhe/lhes serve para "pessoas" e o/a para "coisas". Não é isso! A regra é sintática: se o verbo pede preposição (a, para), use lhe; se não pede, use o/a. Aqui, enterramos e tornamos são verbos transitivos diretos (sem preposição), então só o/a/os/as são válidos. Quem cai na B confunde "coisa" com "pessoa" e esquece a regra do objeto direto.
Fonte: FCC DPE-RS 2017 Conhecimentos Comuns (Analista) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.