Questão nº 11

Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-RS 2017 (nº 11)

FCC2017Comum AnalistaLíngua Portuguesa
Gabarito: Bver comentário ↓

Sem privacidade

Ainda é possível ter privacidade em meio a celulares, redes sociais e dispositivos outros das mais variadas conexões? Os mais velhos devem se lembrar do tempo em que era feio “ouvir conversa alheia”. Hoje é impossível transitar por qualquer espaço público sem recolher informações pessoais de todo mundo. Viajando de ônibus, por exemplo, acompanham-se em conversas ao celular brigas de casal, reclamações trabalhistas, queixas de pais a filhos e vice-versa, declarações românticas, acordo de negócios, informações técnicas, transmissão de dados e um sem-número de situações de que se é testemunha compulsória. Em clara e alta voz, lances da vida alheia se expõem aos nossos ouvidos, desfazendo-se por completo a fronteira que outrora distinguia entre a intimidade e a mais aberta exposição.

Nas redes sociais, emoções destemperadas convivem com confissões perturbadoras, o humor de mau gosto disputa espaço com falácias políticas – tudo deixando ver que agora o sujeito só pode existir na medida em que proclama para o mundo inteiro seu gosto, sua opinião, seu juízo, sua reação emotiva. É como se todos se obrigassem a deixar bem claro para o resto da humanidade o sentido de sua existência, seu propósito no mundo. A discrição, a fala contida, o recolhimento íntimo parecem fazer parte de uma civilização extinta, de quando fazia sentido proteger os limites da própria individualidade.

Em meio a tais processos da irrestrita divulgação da personalidade, as reticências, a reflexão silenciosa e o olhar contemplativo surgem como sintomas problemáticos de alienação. Impõe-se um tipo de coletivismo no qual todos se obrigam a se falar, na esperança de que sejam ouvidos por todos. Nesse imenso ruído social, a reclamação por privacidade é recebida como o mais condenável egoísmo. Pretender identificar-se como um sujeito singular passou a soar como uma provocação escandalosa, em tempos de celebração do paradigma público da informação.


Considerando-se o contexto, o autor se vale do segmento

Resposta comentada

Gabarito Alternativa B

Conceito-chave: A questão testa se você entende a função argumentativa de um trecho dentro do texto. Não basta saber o significado da palavra; você precisa perceber para que o autor a usou naquele contexto. A banca quer que você identifique a intenção por trás da escolha do segmento, não o sentido isolado dele.

  • (A) Incorreta: A expressão "testemunha compulsória" indica que a pessoa é forçada a ouvir, não que está "disponível" ou aberta às conexões. A armadilha aqui é inverter o sentido: o autor critica a exposição alheia, não elogia a abertura do ouvinte.
  • (B) Correta: O autor usa "Em clara e alta voz" para reforçar a ideia de que conversas íntimas (brigas, confissões) são expostas publicamente, sem nenhum pudor. O termo "alta voz" é a prova textual de que a fronteira entre o privado e o público foi rompida de forma ostensiva (escancarada, visível), exatamente o que o autor critica.
  • (C) Incorreta: "Civilização extinta" é usada com nostalgia (saudade de um tempo com mais discrição), não para defender que o obsoleto deve morrer. A pegadinha é tratar uma crítica ao presente como um elogio ao desaparecimento do passado.
  • (D) Incorreta: "Recolhimento íntimo" não cria contraste entre os termos da própria expressão (eles são sinônimos). O contraste é entre esse recolhimento e a exposição atual, mas a alternativa erra ao dizer que o contraste é "entre esses dois termos" da expressão.
  • (E) Incorreta: "Imenso ruído social" é usado para criticar a comunicação vazia e excessiva, não para elogiar sua "eficácia". A armadilha é trocar a conotação negativa (ruído = barulho sem sentido) por uma positiva (eficácia).

Fonte: FCC DPE-RS 2017 Conhecimentos Comuns (Analista) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.

Continue estudando

Estudar é izi

Pratique milhares de questões como esta, de graça, com explicação e gamificação no Quizinho.

Estudar de graça no Quizinho