Questão nº 65
Questão de Medicina do Trabalho · CESGRANRIO Transpetro PSP-RH-2018.1 (nº 65)
Homem de 52 anos, hipertenso, diabético, dá entrada em serviço de pronto-atendimento relatando que, ao levantar, pela manhã, teve sensação estranha em hemiface esquerda e na boca ao falar. No espelho, notou que estava com a hemiface “paralisada”, então correu para a emergência. Relatou que não havia notado nada de diferente até a noite anterior. Ao exame, apresenta paralisia facial esquerda, com ausência do enrugamento do músculo frontal no andar superior da face, paralisia do músculo orbicular comprometendo fechamento das pálpebras, apagamento do sulco nasogeniano, e desvio da comissura labial para o lado são. Não apresenta outros sinais ou sintomas de perda de força ou sensibilidade no corpo. Otoscopia normal. Não foram identificadas alterações em outros pares cranianos.
Qual o diagnóstico provável?
- AInfarto de tronco encefálico
- BInfarto cerebelar
- CParalisia de Bell (alternativa correta)
- DSíndrome de Ramsay-Hunt
- EAcidente vascular cerebral infratentorial
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Conceito-chave: A Paralisia de Bell é uma paralisia facial periférica (ou seja, do nervo facial, o VII par craniano, já fora do tronco encefálico) e idiopática (sem causa definida, provavelmente viral/inflamatória). A pista de ouro para diferenciar de um AVC é que, na paralisia periférica, a paralisia atinge toda a hemiface, incluindo a testa (fronte) e o fechamento do olho do mesmo lado, pois o nervo é acometido em todo o seu trajeto. Já no AVC (paralisia central), a testa é poupada, pois a musculatura frontal tem inervação bilateral do córtex.
- (A) Incorreta: Infarto de tronco encefálico causaria paralisia facial central (poupando a testa) e, quase sempre, outros sinais neurológicos associados, como vertigem, diplopia, disartria, ataxia ou perda de força/sensibilidade em membros — ausentes neste paciente.
- (B) Incorreta: Infarto cerebelar se manifesta com ataxia, vertigem, nistagmo e desequilíbrio, não com paralisia facial isolada e completa da hemiface.
- (C) Correta: É a Paralisia de Bell. O quadro é típico: início súbito (ao acordar), paralisia periférica completa da hemiface esquerda (testa sem enrugar, olho sem fechar, sulco nasogeniano apagado, desvio da comissura para o lado são), sem outros déficits neurológicos e com otoscopia normal. A idade (52 anos) e comorbidades (HAS/DM) são fatores de risco, mas não mudam o diagnóstico.
- (D) Incorreta: Síndrome de Ramsay-Hunt é a paralisia facial periférica causada pelo vírus varicela-zóster, mas é acompanhada de vesículas no pavilhão auricular ou conduto auditivo e frequentemente otalgia intensa. A otoscopia aqui está normal.
- (E) Incorreta: AVC infratentorial (tronco ou cerebelo) causaria paralisia facial central (poupando a testa) e/ou outros sinais de tronco (vertigem, disartria, ataxia, alteração de pares cranianos adjacentes). A paralisia periférica completa, sem outros sintomas, é incompatível.
Armadilha do distrator mais tentador (A): A banca tenta confundir o aluno com o fato de o paciente ser hipertenso e diabético, sugerindo fortemente um AVC. Mas a paralisia facial periférica que poupa a testa é o sinal clássico de AVC, enquanto a paralisia periférica que acomete a testa (como aqui) é típica de lesão do nervo facial em seu trajeto extracraniano — ou seja, Paralisia de Bell. A ausência de outros déficits neurológicos e a otoscopia normal fecham o diagnóstico.
Fonte: CESGRANRIO Transpetro PSP-RH-2018.1 Médico(a) do Trabalho Júnior. Reproduzida para fins de estudo.