Questão nº 46
Questão de Sociologia e Psicologia Aplicadas ao Trabalho · CESGRANRIO CPNU 2024 (nº 46)
O texto apresentado a seguir faz a crítica a uma percepção que atravessa o imaginário cultural brasileiro e marca, de forma profunda, a construção identitária de uma parcela da população brasileira, bem como as relações sociais no Brasil.
É importante chamar a atenção para isso, porque o texto, de modo geral, é a reprodução do preconceito de não haver preconceito, como disse o Florestan Fernandes, e de tomar sempre os Estados Unidos como modelo: nos Estados Unidos é que tem racismo; aqui não tem, os negros mesmo dizem isso, e, sabemos, existe aí de montão.
Portanto, essa cidadania a que estamos nos referindo aqui no decorrer destes debates, a cidadania do negro é uma cidadania estraçalhada, é uma cidadania dilacerada [...]
A crítica citada se refere à ideia de
- Abenevolência do colonizador português
- Bteoria do colonialismo subdesenvolvedor
- Cmito do nativo preguiçoso
- Dmito da democracia racial (alternativa correta)
- Ecomplexo de vira-latas
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
O conceito-chave é o mito da democracia racial: a crença falsa de que no Brasil não existe racismo porque há miscigenação e convivência "harmoniosa" entre raças. Essa ideia, na prática, esconde e perpetua o preconceito, pois desarma a luta antirracista ao dizer que "aqui é diferente dos EUA". O texto citado critica exatamente essa percepção: achar que "não há preconceito" já é, em si, um preconceito (como disse Florestan Fernandes), pois mascara a cidadania dilacerada do povo negro.
- (A) Incorreta: A "benevolência do colonizador português" é uma narrativa que romantiza a colonização, mas o texto foca na negação do racismo no presente, não na suposta bondade histórica do colonizador.
- (B) Incorreta: A "teoria do colonialismo subdesenvolvedor" é uma explicação econômica sobre a exploração das colônias, e o texto trata de relações raciais e identitárias, não de desenvolvimento econômico.
- (C) Incorreta: O "mito do nativo preguiçoso" é um estereótipo sobre a população indígena ou trabalhadora, e não sobre a negação do racismo contra negros.
- (D) Correta: O texto critica diretamente a ideia de que "aqui não tem racismo" e que "os negros mesmo dizem isso", o que é a definição exata do mito da democracia racial: a falácia de que vivemos em igualdade racial plena, quando na verdade há racismo estrutural e a cidadania negra é "estraçalhada".
- (E) Incorreta: O "complexo de vira-latas" (termo de Nelson Rodrigues) refere-se à inferioridade cultural brasileira frente a outros países, mas não aborda especificamente a negação do racismo ou a identidade racial.
Pegadinha da banca: A alternativa (E) complexo de vira-latas é o distrator mais tentador, pois o texto menciona "tomar os Estados Unidos como modelo". O aluno pode confundir "inferioridade em relação aos EUA" com "complexo de vira-latas". Porém, o foco do texto é a comparação racial (lá tem racismo, aqui não), e não uma comparação cultural geral. A armadilha está em trocar o objeto da crítica: o texto não diz que o Brasil é inferior aos EUA, mas que usamos os EUA como espelho para negar nosso próprio racismo.
Fonte: CESGRANRIO CPNU 2024 Bloco 4 – Trabalho e Saúde do Servidor. Reproduzida para fins de estudo.