Questão nº 12
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE IRBR 2025 (nº 12)
Após as experiências históricas do século passado, na psicanálise, no estruturalismo lévi-straussiano, na semiologia e no pós-estruturalismo, não há mais plausibilidade para se pensar em um humano típico do século XIX. Um ser volitivo e racional, plenamente consciente de suas necessidades materiais e que age movido por suas decisões voluntariosas com a finalidade de atender a essas necessidades. Tudo muito coerente, porém ficcional. A pessoa que pensamos desde o final do século XX é bem diversa. Muito mais ambígua e inconsistente em seu agir no mundo, um agir reativo ao seu meio em confronto com suas vivências culturais. Atende a necessidades materiais e a “necessidades” simbólicas, isto é, a desejos. Pensamos a pessoa como um animal simbólico e desejante, uma estrutura movida por algo bem mais complexo do que aquela simples e plena consciência racional. Movimenta-se por algo que vai além de suas necessidades biológicas. O desejo abarca a necessidade.
Cada pessoa é uma entidade eminentemente simbólica, deseja por meio do simbólico. Movimenta-se por seus desejos, fala seus desejos, deseja mediante a expressão simbólica. Fala por significações desejantes. Trata-se de um ente constituído na e pela linguagem, enlaçado socialmente pela linguagem. Não uma linguagem como mera transmissão de ideias que já estariam na consciência individual. Não uma linguagem como um simples produto da mente racional e intencional que estaria meramente expressando e comunicando pensamentos que a antecedem, mas linguagem como produção, como processo de produção de ideias desejantes. Uma linguagem considerada como laço societário. Como aquilo que une um humano a outro, que os faz humanos e, assim, os torna pessoas simbólico-desejantes. São sujeitos sujeitados à linguagem. Cada pessoa fala seus desejos e se torna sujeito desses desejos que a sujeitam.
Em relação às ideias e a aspectos linguísticos e textuais do texto precedente, julgue os seguintes itens.
No texto, a linguagem é tratada como elemento com função mais abrangente que a de mera transmissão de ideias ou de expressão e comunicação de pensamentos, pois está envolvida na própria construção de desejos e pensamentos.
Resposta comentada
A ideia central é que a linguagem não é só um "cano" por onde passam pensamentos prontos: ela é o próprio processo de produção desses pensamentos e desejos. O texto diz que a pessoa é um ente constituído na e pela linguagem — ou seja, a linguagem vem antes e molda o que sentimos, desejamos e pensamos, em vez de apenas transportar o que já estava pronto na consciência.
- Correta: Certo. O texto nega explicitamente a linguagem como "mera transmissão de ideias" e como "simples produto da mente racional", afirmando-a como produção de ideias desejantes e laço societário — logo, função bem mais ampla que comunicar.
Fica de olho: A banca costuma inverter para algo como "o texto defende que a linguagem apenas expressa pensamentos previamente formados na consciência individual" — isso seria Errado, pois contraria justamente o trecho em que o autor rejeita essa visão. Outra armadilha é trocar "constitui" por "reflete": se o item disser que a linguagem só reflete desejos já existentes, está errado; no texto ela os produz.
Fonte: CEBRASPE IRBR 2025 Diplomata (Terceiro Secretário). Reproduzida para fins de estudo.