Questão nº 11
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE IRBR 2025 (nº 11)
Após as experiências históricas do século passado, na psicanálise, no estruturalismo lévi-straussiano, na semiologia e no pós-estruturalismo, não há mais plausibilidade para se pensar em um humano típico do século XIX. Um ser volitivo e racional, plenamente consciente de suas necessidades materiais e que age movido por suas decisões voluntariosas com a finalidade de atender a essas necessidades. Tudo muito coerente, porém ficcional. A pessoa que pensamos desde o final do século XX é bem diversa. Muito mais ambígua e inconsistente em seu agir no mundo, um agir reativo ao seu meio em confronto com suas vivências culturais. Atende a necessidades materiais e a “necessidades” simbólicas, isto é, a desejos. Pensamos a pessoa como um animal simbólico e desejante, uma estrutura movida por algo bem mais complexo do que aquela simples e plena consciência racional. Movimenta-se por algo que vai além de suas necessidades biológicas. O desejo abarca a necessidade.
Cada pessoa é uma entidade eminentemente simbólica, deseja por meio do simbólico. Movimenta-se por seus desejos, fala seus desejos, deseja mediante a expressão simbólica. Fala por significações desejantes. Trata-se de um ente constituído na e pela linguagem, enlaçado socialmente pela linguagem. Não uma linguagem como mera transmissão de ideias que já estariam na consciência individual. Não uma linguagem como um simples produto da mente racional e intencional que estaria meramente expressando e comunicando pensamentos que a antecedem, mas linguagem como produção, como processo de produção de ideias desejantes. Uma linguagem considerada como laço societário. Como aquilo que une um humano a outro, que os faz humanos e, assim, os torna pessoas simbólico-desejantes. São sujeitos sujeitados à linguagem. Cada pessoa fala seus desejos e se torna sujeito desses desejos que a sujeitam.
Em relação às ideias e a aspectos linguísticos e textuais do texto precedente, julgue os seguintes itens.
Em suas ocorrências no sexto período do segundo parágrafo, o vocábulo “que” classifica-se como pronome relativo e funciona, assim como o vocábulo “a”, em “a antecedem”, como elemento de coesão referencial.
Resposta comentada
Pronome relativo é o "que" que retoma um substantivo já dito antes (o antecedente) e liga duas ideias — ex.: "o livro que li" (que = o livro). Já o "a" em "a antecedem" é pronome pessoal oblíquo (objeto direto), que também retoma algo já mencionado — os "pensamentos". Os dois, portanto, funcionam como elementos de coesão referencial: ambos apontam para trás, retomando um termo anterior.
- Correta: Certo. No 6º período do 2º parágrafo ("Não uma linguagem como um simples produto da mente racional e intencional que estaria meramente expressando e comunicando pensamentos que a antecedem"), o primeiro "que" retoma "mente racional e intencional" (pronome relativo) e o "a" de "a antecedem" retoma "pensamentos" (pronome oblíquo) — os dois são referenciais, ou seja, remetem a termos já expressos.
Fica de olho: a banca costuma trocar o antecedente ou inserir um "que" que NÃO é relativo (conjunção integrante, ex.: "sei que ele veio", ou conjunção explicativa/causal) para te fazer marcar "Certo" achando que todo "que" retoma algo — sempre confira se há um substantivo antecedente sendo retomado.
Fonte: CEBRASPE IRBR 2025 Diplomata (Terceiro Secretário). Reproduzida para fins de estudo.