Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE IRBR 2025 (nº 6)
Bem antes que tentassem me convencer que a data de nascimento da modernidade era um espirro cartesiano, ou então um novo interesse empírico pela natureza que transpira das páginas do Novum Organum de Bacon, ou ainda (mais tarde e mais “marxista”) a abertura dos primeiros bancos — bem antes de tudo isso, quando era rapaz, se ensinava que a modernidade começou em outubro de 1492. Nos livros da escola, o primeiro capítulo dos tempos modernos eram e são as grandes explorações. Entre estas, a viagem de Colombo ocupa um lugar muito especial. Descidas Saara adentro ou intermináveis caravanas por montes e desertos até a China de nada valiam comparadas com a aventura do genovês. Precisa ler Mediterrâneo de Fernand Braudel para conceber o alcance simbólico do pulo além de Gibraltar, não costeando, mas reto para frente. Precisa, entre outras palavras, evocar o mar Mediterrâneo — este pátio comum navegável e navegado por milênios, espécie de útero vital compartilhado — para entender por que a viagem de Colombo acabou e continua sendo uma metáfora do fim do mundo fechado, do abandono da casa materna e paterna.
Julgue os itens que se seguem, relativos ao texto precedente.
Pela leitura do texto, é possível relacionar a construção da história da modernidade a uma perspectiva eurocêntrica, apesar de o Mediterrâneo fazer parte do passado e do presente de outras culturas, além da europeia.
Resposta comentada
O texto mostra que a modernidade é ensinada como tendo começado em outubro de 1492, com a viagem de Colombo — ou seja, a partir de um marco europeu (a chegada dos europeus à América). Isso é uma visão eurocêntrica: coloca a Europa como centro e ponto de partida da história. Ao mesmo tempo, o próprio texto reconhece que o Mediterrâneo era um "pátio comum" navegado por milênios por vários povos — não só europeus. Então dá pra perceber a contradição: a narrativa oficial ignora essas outras culturas e elege um feito europeu como "início" de tudo.
- Correta: Certo. O texto associa o início da modernidade a um evento europeu (Colombo, 1492), o que revela a perspectiva eurocêntrica, mesmo reconhecendo que o Mediterrâneo pertence a várias culturas além da europeia.
Fica de olho: A banca costuma inverter dizendo que "o texto critica o eurocentrismo e por isso nega a importância de 1492" — errado, porque o autor apenas narra como a modernidade foi ensinada, sem negar o marco; ou troca "eurocêntrica" por "multicultural", forçando você a marcar Errado achando que o texto valoriza só a Europa sem ressalvas.
Fonte: CEBRASPE IRBR 2025 Diplomata (Terceiro Secretário). Reproduzida para fins de estudo.