Questão nº 10
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE IRBR 2025 (nº 10)
Após as experiências históricas do século passado, na psicanálise, no estruturalismo lévi-straussiano, na semiologia e no pós-estruturalismo, não há mais plausibilidade para se pensar em um humano típico do século XIX. Um ser volitivo e racional, plenamente consciente de suas necessidades materiais e que age movido por suas decisões voluntariosas com a finalidade de atender a essas necessidades. Tudo muito coerente, porém ficcional. A pessoa que pensamos desde o final do século XX é bem diversa. Muito mais ambígua e inconsistente em seu agir no mundo, um agir reativo ao seu meio em confronto com suas vivências culturais. Atende a necessidades materiais e a “necessidades” simbólicas, isto é, a desejos. Pensamos a pessoa como um animal simbólico e desejante, uma estrutura movida por algo bem mais complexo do que aquela simples e plena consciência racional. Movimenta-se por algo que vai além de suas necessidades biológicas. O desejo abarca a necessidade.
Cada pessoa é uma entidade eminentemente simbólica, deseja por meio do simbólico. Movimenta-se por seus desejos, fala seus desejos, deseja mediante a expressão simbólica. Fala por significações desejantes. Trata-se de um ente constituído na e pela linguagem, enlaçado socialmente pela linguagem. Não uma linguagem como mera transmissão de ideias que já estariam na consciência individual. Não uma linguagem como um simples produto da mente racional e intencional que estaria meramente expressando e comunicando pensamentos que a antecedem, mas linguagem como produção, como processo de produção de ideias desejantes. Uma linguagem considerada como laço societário. Como aquilo que une um humano a outro, que os faz humanos e, assim, os torna pessoas simbólico-desejantes. São sujeitos sujeitados à linguagem. Cada pessoa fala seus desejos e se torna sujeito desses desejos que a sujeitam.
Em relação às ideias e a aspectos linguísticos e textuais do texto precedente, julgue os seguintes itens.
Entende-se do texto que a imagem associada ao ser humano do século XIX é essencialmente diversa da imagem associada ao ser humano desde o final do século XX, período em que ele deixa de preocupar-se com o mundo material ao seu redor.
Resposta comentada
O texto diz que o ser humano do século XIX era visto como racional e consciente de suas necessidades materiais, enquanto o ser humano do final do século XX é visto como simbólico e desejante. Mas atenção: o novo modelo não abandona as necessidades materiais — ele apenas as inclui dentro do desejo, que é mais amplo.
- Correta: Errado. O texto afirma que o desejo abarca a necessidade, ou seja, o humano continua atendendo ao material, só que movido também pelo simbólico.
A pegadinha está no trecho "deixa de preocupar-se com o mundo material ao seu redor". O texto diz o contrário: "Atende a necessidades materiais e a 'necessidades' simbólicas" e "O desejo abarca a necessidade". A banca trocou "inclui/abarca" por "deixa de", criando uma oposição que não existe no texto.
Como ficaria certo: Entende-se do texto que a imagem do ser humano do século XIX é diversa da imagem do ser humano do final do século XX, o qual continua atendendo a necessidades materiais, mas agora movido também por desejos simbólicos.
Fonte: CEBRASPE IRBR 2025 Diplomata (Terceiro Secretário). Reproduzida para fins de estudo.