Questão nº 9

Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE IRBR 2025 (nº 9)

CEBRASPE2025Diplomata (Terceiro Secretário)Língua Portuguesa

Após as experiências históricas do século passado, na psicanálise, no estruturalismo lévi-straussiano, na semiologia e no pós-estruturalismo, não há mais plausibilidade para se pensar em um humano típico do século XIX. Um ser volitivo e racional, plenamente consciente de suas necessidades materiais e que age movido por suas decisões voluntariosas com a finalidade de atender a essas necessidades. Tudo muito coerente, porém ficcional. A pessoa que pensamos desde o final do século XX é bem diversa. Muito mais ambígua e inconsistente em seu agir no mundo, um agir reativo ao seu meio em confronto com suas vivências culturais. Atende a necessidades materiais e a “necessidades” simbólicas, isto é, a desejos. Pensamos a pessoa como um animal simbólico e desejante, uma estrutura movida por algo bem mais complexo do que aquela simples e plena consciência racional. Movimenta-se por algo que vai além de suas necessidades biológicas. O desejo abarca a necessidade.

Cada pessoa é uma entidade eminentemente simbólica, deseja por meio do simbólico. Movimenta-se por seus desejos, fala seus desejos, deseja mediante a expressão simbólica. Fala por significações desejantes. Trata-se de um ente constituído na e pela linguagem, enlaçado socialmente pela linguagem. Não uma linguagem como mera transmissão de ideias que já estariam na consciência individual. Não uma linguagem como um simples produto da mente racional e intencional que estaria meramente expressando e comunicando pensamentos que a antecedem, mas linguagem como produção, como processo de produção de ideias desejantes. Uma linguagem considerada como laço societário. Como aquilo que une um humano a outro, que os faz humanos e, assim, os torna pessoas simbólico-desejantes. São sujeitos sujeitados à linguagem. Cada pessoa fala seus desejos e se torna sujeito desses desejos que a sujeitam.

Em relação às ideias e a aspectos linguísticos e textuais do texto precedente, julgue os seguintes itens.


No segundo parágrafo, está elíptico o sujeito das orações “Fala por significações desejantes” e “Trata-se de um ente constituído na e pela linguagem”, sendo o sujeito de referência de ambas o termo “Cada pessoa”, que introduz o parágrafo.

Resposta comentada

Sujeito elíptico (ou oculto) é aquele que não aparece escrito, mas pode ser identificado pela desinência do verbo ou pelo contexto. Já "Trata-se de" é uma oração sem sujeito (com o verbo tratar na 3ª pessoa + pronome se como índice de indeterminação), ou seja, não há sujeito para ser elíptico.

  • Correta: Errado. O item erra ao dizer que o sujeito de "Trata-se de um ente constituído na e pela linguagem" está elíptico: essa oração é sem sujeito, logo não há sujeito oculto a recuperar.

O detalhe torcido está em "sendo o sujeito de referência de ambas o termo 'Cada pessoa'" — a banca mistura dois casos distintos: em "Fala por significações desejantes" há, sim, sujeito elíptico (recuperável: "Cada pessoa"); mas em "Trata-se de..." o se é índice de indeterminação do sujeito, e a oração é inexistente de sujeito. Não se pode atribuir "Cada pessoa" como sujeito de uma oração que não tem sujeito.

Como ficaria certo: No segundo parágrafo, está elíptico o sujeito apenas da oração "Fala por significações desejantes", cujo referente é "Cada pessoa"; já "Trata-se de um ente constituído na e pela linguagem" é oração sem sujeito, não havendo sujeito elíptico a identificar.

Fonte: CEBRASPE IRBR 2025 Diplomata (Terceiro Secretário). Reproduzida para fins de estudo.

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