Questão nº 37
Questão de Medicina - Nutrologia · FGV FHEMIG 2023 (nº 37)
Na nutrição parenteral, os lipídios são uma fonte importante de energia e de ácidos graxos essenciais para os pacientes.
Acerca dos tipos e uso de lipídios na nutrição parenteral, assinale a afirmativa correta.
- AA utilização de lipídios de origem animal, como óleo de peixe, é indicada para pacientes com sepse grave, devido às propriedades anti-inflamatórias desses lipídios, que podem modular a resposta inflamatória excessiva. (alternativa correta)
- BLipídios com predominância de ácidos graxos saturados devem ser preferencialmente utilizados em pacientes com síndrome do desconforto respiratório agudo, uma vez que reduzem a produção de citocinas pró-inflamatórias.
- CA utilização exclusiva de lipídeos de origem vegetal é recomendada em pacientes com coagulopatias, pois esses lipídios apresentam menor risco de interferir na cascata de coagulação.
- DLipídios contendo ácidos graxos ômega-6 são contraindicados em pacientes com lesão hepática aguda, pois podem agravar o processo inflamatório e a esteatose hepática.
- EA adição de lipídeos na nutrição parenteral é desnecessária em pacientes obesos submetidos à restrição calórica, uma vez que a glicose e os aminoácidos são suficientes para atender suas necessidades energéticas.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Na nutrição parenteral, os lipídios são essenciais não só como fonte de energia concentrada, mas também para fornecer ácidos graxos essenciais (AGEs), que o corpo não consegue produzir e são vitais para diversas funções celulares e estruturais. Diferentes tipos de lipídios têm efeitos metabólicos e imunomoduladores distintos, especialmente em pacientes críticos.
- (A) Correta: A utilização de lipídios de origem animal, como óleo de peixe, é indicada para pacientes com sepse grave, devido às propriedades anti-inflamatórias desses lipídios (ricos em ácidos graxos ômega-3, como EPA e DHA), que podem modular a resposta inflamatória excessiva e potencialmente melhorar desfechos clínicos.
- (B) Incorreta: Lipídios com predominância de ácidos graxos saturados não reduzem a produção de citocinas pró-inflamatórias; na verdade, podem ter efeitos neutros ou até pró-inflamatórios. Em pacientes com síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), lipídios com propriedades anti-inflamatórias (como os ômega-3) são preferidos.
- (C) Incorreta: A utilização exclusiva de lipídeos de origem vegetal (que frequentemente são ricos em ácidos graxos ômega-6, como o óleo de soja) não é recomendada para pacientes com coagulopatias com o objetivo de ter "menor risco" de interferência na cascata de coagulação. Embora os ômega-3 (presentes no óleo de peixe) possam ter efeitos antiplaquetários, os ômega-6 também podem influenciar a coagulação. A escolha de lipídios em coagulopatias é complexa e não se baseia na exclusividade de lipídios vegetais por um "menor risco" generalizado. Armadilha da banca: A afirmação de "menor risco" com lipídios vegetais em coagulopatias é uma generalização enganosa, pois o perfil de ácidos graxos específicos é o que importa, e muitos óleos vegetais são ricos em ômega-6, que também podem afetar a coagulação.
- (D) Incorreta: Lipídios contendo ácidos graxos ômega-6 não são estritamente "contraindicados" em pacientes com lesão hepática aguda. Embora o uso excessivo de emulsões lipídicas puras de óleo de soja (ricas em ômega-6) tenha sido associado a colestase e esteatose hepática em nutrição parenteral de longo prazo, a formulação atual de emulsões mistas ou a base de azeite/óleo de peixe é preferida para mitigar esses riscos, mas a contraindicação absoluta é uma afirmação muito forte.
- (E) Incorreta: A adição de lipídios na nutrição parenteral é necessária mesmo em pacientes obesos submetidos à restrição calórica. Os lipídios fornecem ácidos graxos essenciais (AGEs), que o corpo não consegue sintetizar e que são cruciais para a integridade das membranas celulares, síntese de hormônios e outras funções vitais, independentemente das reservas energéticas do paciente. A ausência de lipídios levaria à deficiência de AGEs.
Fonte: FGV FHEMIG 2023 Nutrologia (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.