Questão nº 13
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT9 2022 (nº 13)
Vocação e ambição
Machado de Assis tem um conto admirável – “Um homem célebre” – que narra a história de um famoso e prestigiado compositor popular do Rio do século XIX, um tal de Pestana, que em vez de gozar o sucesso de cada uma de suas composições ligeiras e dançantes, vivia atormentado por não compor nada à altura de um Mozart, de um Beethoven. Cada vez que uma composição sua atingia em cheio o gosto popular, o maestro oculto que havia nele sofria o sucesso fácil como uma sentença de morte. Machado resumiu assim a vida dramática desse músico ao mesmo tempo celebrado e infeliz: “Eterna peteca entre a ambição e a vocação”.
A frase é forte: o jogo da peteca realiza o sofrido movimento de pêndulo de cada divisão nossa, que nunca encontra um ponto de equilíbrio. Ser jogado eternamente de um lado para outro, sem repouso, é de enlouquecer. É a oposição contínua entre duas forças que nos dividem e fazem sofrer: a força que está na inclinação natural para atender a uma vocação já instalada em nós e a força pela qual pretendemos atingir uma altura que está longe dos nossos recursos. No caso de Pestana, a aclamação pública que cada música sua atingia não compensava de modo algum a falta de realização de seus mais altos projetos pessoais.
Com esse conto, Machado lembra que há quem não se contente em ser uma celebridade, sobretudo quando julga vazia essa celebração; há ainda quem busque alcançar a aprovação pública pelo valor efetivo de uma mais alta realização criativa. Essa busca, para desgraça nossa, é sofrida, e pode nos levar a dançar de um lado para outro. A saída estaria em identificarmos precisamente qual é a nossa vocação, para estabelecermos a partir dela os contornos da nossa ambição.
(TOLEDO, Cristiano. A publicar)
Considere estas orações:
I. Pestana era um célebre compositor popular.
II. Pestana almejava ser um compositor clássico.
III. O sucesso popular atormentava o Pestana.
Essas três orações articulam-se com correção, clareza e coesão neste período único:
- AMalgrado Pestana se atormentasse como um celebrado compositor popular, ele almejava ser em vez disso um artista clássico.
- BPestana, que almejava ser um compositor clássico, ainda assim lhe atormentava por que se celebrara como um compositor popular.
- CO tormento que Pestana sentia por ser célebre enquanto fosse popular, não lhe diminuía o desejo de sê-lo como compositor clássico.
- DSer um popular compositor célebre só atormentaria aquele Pestana, em quem a música clássica era almejada mais que tudo.
- EAlmejando ser um compositor clássico, atormentava-se o Pestana ao ser celebrado como um compositor popular. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
A articulação de orações é a forma como conectamos ideias em um texto, usando palavras e estruturas gramaticais para mostrar a relação entre elas (causa, consequência, tempo, oposição, etc.), transformando frases simples em períodos mais complexos e coesos.
I. Pestana era um célebre compositor popular.
II. Pestana almejava ser um compositor clássico.
III. O sucesso popular atormentava o Pestana.
- (A) Incorreta: A conjunção "Malgrado" (apesar de) introduz uma concessão, mas a construção "se atormentasse como um celebrado compositor popular" não reflete com precisão a ideia de que o sucesso o atormentava. Sugere que ele se atormentava na condição de popular, e não pelo sucesso em si.
- (B) Incorreta: Apresenta problemas de regência e concordância. "ainda assim lhe atormentava" está incorreto; o pronome "lhe" é objeto indireto, mas o verbo "atormentar" aqui deveria ter um sujeito claro (o sucesso) e um objeto direto (ele/o Pestana), ou ser reflexivo ("se atormentava"). A forma "por que se celebrara" também é inadequada; deveria ser "porque" (conjunção) e a construção é ambígua.
- (C) Incorreta: A expressão "célebre enquanto fosse popular" é redundante e pouco precisa. A frase muda o foco da relação entre as ideias: em vez de mostrar que o tormento resultava da contradição entre o que ele era e o que almejava, ela afirma que o tormento não diminuía seu desejo, o que não é a relação principal estabelecida pelas orações originais.
- (D) Incorreta: O uso do condicional "só atormentaria" introduz uma hipótese ou condição, enquanto as orações originais descrevem fatos. A construção "em quem a música clássica era almejada mais que tudo" é gramaticalmente correta, mas torna a frase mais indireta e menos fluida na articulação das ideias.
- (E) Correta: Esta alternativa articula as três orações de forma clara e coesa. "Almejando ser um compositor clássico" (oração II) funciona como uma oração reduzida de gerúndio com valor causal/temporal, explicando a razão do tormento. "atormentava-se o Pestana" (oração III) usa a forma reflexiva, que está em consonância com a ideia de sofrimento interno do personagem ("vivia atormentado", "o maestro oculto... sofria"). "ao ser celebrado como um compositor popular" (oração I) é uma oração reduzida de infinitivo que indica o momento ou a circunstância em que o tormento ocorria, conectando-o ao sucesso popular. A frase expressa perfeitamente a contradição e o sofrimento de Pestana.
Fonte: FCC TRT9 2022 Analista Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.