Questão nº 12

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT9 2022 (nº 12)

FCC2022Analista Judiciário - Área JudiciáriaLíngua Portuguesa
Gabarito: Dver comentário ↓

Vocação e ambição

Machado de Assis tem um conto admirável – “Um homem célebre” – que narra a história de um famoso e prestigiado compositor popular do Rio do século XIX, um tal de Pestana, que em vez de gozar o sucesso de cada uma de suas composições ligeiras e dançantes, vivia atormentado por não compor nada à altura de um Mozart, de um Beethoven. Cada vez que uma composição sua atingia em cheio o gosto popular, o maestro oculto que havia nele sofria o sucesso fácil como uma sentença de morte. Machado resumiu assim a vida dramática desse músico ao mesmo tempo celebrado e infeliz: “Eterna peteca entre a ambição e a vocação”.

A frase é forte: o jogo da peteca realiza o sofrido movimento de pêndulo de cada divisão nossa, que nunca encontra um ponto de equilíbrio. Ser jogado eternamente de um lado para outro, sem repouso, é de enlouquecer. É a oposição contínua entre duas forças que nos dividem e fazem sofrer: a força que está na inclinação natural para atender a uma vocação já instalada em nós e a força pela qual pretendemos atingir uma altura que está longe dos nossos recursos. No caso de Pestana, a aclamação pública que cada música sua atingia não compensava de modo algum a falta de realização de seus mais altos projetos pessoais.

Com esse conto, Machado lembra que há quem não se contente em ser uma celebridade, sobretudo quando julga vazia essa celebração; há ainda quem busque alcançar a aprovação pública pelo valor efetivo de uma mais alta realização criativa. Essa busca, para desgraça nossa, é sofrida, e pode nos levar a dançar de um lado para outro. A saída estaria em identificarmos precisamente qual é a nossa vocação, para estabelecermos a partir dela os contornos da nossa ambição.

(TOLEDO, Cristiano. A publicar)


É plenamente adequada a correlação entre os tempos e modos verbais na frase:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

A correlação verbal é a relação lógica e gramatical entre os tempos e modos dos verbos em uma frase, garantindo que as ações se encaixem de forma coerente no tempo e na condição.

(A) Incorreta: A correlação entre "Se Pestana compusesse" (Pretérito Imperfeito do Subjuntivo) e "mais prazer auferirá" (Futuro do Presente do Indicativo) está inadequada. O correto seria "mais prazer auferiria" (Futuro do Pretérito do Indicativo) para expressar a consequência de uma condição hipotética.
(B) Incorreta: A frase apresenta inconsistência. "se o artista seguir" (Futuro do Subjuntivo) geralmente pede "será" (Futuro do Presente do Indicativo) na principal, não "seria" (Futuro do Pretérito do Indicativo). Ou, se "seria" fosse mantido, a condição deveria ser "se o artista seguisse" (Pretérito Imperfeito do Subjuntivo). Além disso, "que atingisse" (Pretérito Imperfeito do Subjuntivo) não se correlaciona bem com "seguir" no futuro do subjuntivo; o correto seria "que atinja" (Presente do Subjuntivo).
(C) Incorreta: A correlação entre "não se importariam" (Futuro do Pretérito do Indicativo) e "se o seu sucesso venha a ocorrer" (Presente do Subjuntivo) está incorreta. O Futuro do Pretérito do Indicativo em uma oração principal pede o Pretérito Imperfeito do Subjuntivo na oração subordinada condicional, ou seja, "se o seu sucesso viesse a ocorrer".
(D) Correta: A correlação verbal está plenamente adequada. "Mesmo que o compositor Pestana obtivesse" (Pretérito Imperfeito do Subjuntivo) expressa uma condição ou concessão hipotética, e "em nada sua ambição diminuiria" (Futuro do Pretérito do Indicativo) expressa a consequência hipotética dessa condição. Esta é uma correlação clássica e gramaticalmente perfeita.
(E) Incorreta: A armadilha da banca reside na interpretação de "Ao proporem". Embora "Ao + infinitivo pessoal" possa ter valor condicional ("Se propusessem"), a combinação com "se espantariam" (Futuro do Pretérito) e "caso viesse" (Pretérito Imperfeito do Subjuntivo) torna a estrutura um pouco redundante ou menos direta do que o ideal para "plenamente adequada". Se "Ao proporem" for interpretado como temporal ("Quando propuserem"), a correlação com "espantariam" estaria incorreta (o correto seria "espantar-se-ão"). Mesmo que se aceite a interpretação condicional para "Ao proporem", a construção é menos fluida e direta do que a da alternativa D, que é inequivocamente correta.

Fonte: FCC TRT9 2022 Analista Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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