Questão nº 14
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT9 2022 (nº 14)
Vocação e ambição
Machado de Assis tem um conto admirável – “Um homem célebre” – que narra a história de um famoso e prestigiado compositor popular do Rio do século XIX, um tal de Pestana, que em vez de gozar o sucesso de cada uma de suas composições ligeiras e dançantes, vivia atormentado por não compor nada à altura de um Mozart, de um Beethoven. Cada vez que uma composição sua atingia em cheio o gosto popular, o maestro oculto que havia nele sofria o sucesso fácil como uma sentença de morte. Machado resumiu assim a vida dramática desse músico ao mesmo tempo celebrado e infeliz: “Eterna peteca entre a ambição e a vocação”.
A frase é forte: o jogo da peteca realiza o sofrido movimento de pêndulo de cada divisão nossa, que nunca encontra um ponto de equilíbrio. Ser jogado eternamente de um lado para outro, sem repouso, é de enlouquecer. É a oposição contínua entre duas forças que nos dividem e fazem sofrer: a força que está na inclinação natural para atender a uma vocação já instalada em nós e a força pela qual pretendemos atingir uma altura que está longe dos nossos recursos. No caso de Pestana, a aclamação pública que cada música sua atingia não compensava de modo algum a falta de realização de seus mais altos projetos pessoais.
Com esse conto, Machado lembra que há quem não se contente em ser uma celebridade, sobretudo quando julga vazia essa celebração; há ainda quem busque alcançar a aprovação pública pelo valor efetivo de uma mais alta realização criativa. Essa busca, para desgraça nossa, é sofrida, e pode nos levar a dançar de um lado para outro. A saída estaria em identificarmos precisamente qual é a nossa vocação, para estabelecermos a partir dela os contornos da nossa ambição.
(TOLEDO, Cristiano. A publicar)
Alguém deveria dizer ao Pestana: – Deixa de lamentar essa tua viva produção popular, goza o prestígio que já alcançaste!
Ao transpor a frase acima para o discurso indireto, ela deverá ficar: Alguém deveria dizer ao Pestana
- Aque deixasse de lamentar aquela sua viva produção popular, que gozasse o prestígio já alcançado. (alternativa correta)
- Bporque não deixasse de lamentar a produção popular, para assim gozar teu prestígio já alcançado!
- Cse ele não deveria deixar de lamentar essa sua produção popular em vez de gozar o prestígio que já se alcançara.
- Dpara que ele deixe de lamentar esta produção popular, gozando esse prestígio já alcançado.
- Epara não lamentar tua viva produção popular, porque não gozava do prestígio que ela já alcançou.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Quando transformamos o discurso direto (as palavras exatas de alguém, geralmente entre aspas) em discurso indireto (o que alguém disse, contado por outra pessoa), precisamos ajustar os verbos, pronomes, advérbios e tempos verbais para que a frase faça sentido na nova perspectiva.
- (A) Correta: Esta alternativa faz todos os ajustes necessários. O imperativo "Deixa" e "goza" são corretamente transformados para o pretérito imperfeito do subjuntivo ("deixasse", "gozasse"), que é o tempo verbal adequado para expressar um conselho ou pedido no discurso indireto quando o verbo introdutório ("deveria dizer") está no condicional. Os pronomes e demonstrativos também são ajustados: "essa" vira "aquela" e "tua" vira "sua", adequando-se à terceira pessoa. A expressão "que já alcançaste" é corretamente resumida para "já alcançado", mantendo o sentido do pretérito.
- (B) Incorreta: A introdução "porque não deixasse" altera o sentido da frase, transformando um conselho em uma explicação. Além disso, o pronome "teu" não foi ajustado para a terceira pessoa ("seu").
- (C) Incorreta: A construção "se ele não deveria" transforma a frase em uma pergunta indireta, o que não corresponde ao conselho ou ordem original. O demonstrativo "essa" também não foi ajustado.
- (D) Incorreta: O verbo "deixe" está no presente do subjuntivo, mas, como o verbo introdutório ("deveria dizer") está no condicional, o correto seria o pretérito imperfeito do subjuntivo ("deixasse"). Os demonstrativos "esta" e "esse" também não foram corretamente ajustados.
- (E) Incorreta: A construção "para não lamentar" com infinitivo não expressa adequadamente o conselho. O pronome "tua" não foi ajustado, e a segunda parte da frase ("porque não gozava do prestígio que ela já alcançou") altera completamente o sentido original, que era um conselho para gozar o prestígio.
Fonte: FCC TRT9 2022 Analista Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.