Questão nº 12
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT7 2024 (nº 12)
[Vida a compartilhar]
Um jovem amigo meu é uma pessoa exasperada e deprimida. Na semana passada, ele foi atraído por uma história edificante. Uma escola americana dedicara um anfiteatro a uma professora de escola fundamental que, depois de uma longa carreira de ensino, foi paralisada por uma distrofia muscular, e seguiu ensinando. Quando perdeu a voz, passou a ensinar surdos-mudos. Na reportagem, ela estranhava a atenção e os elogios: era uma mulher em paz consigo mesma e com o mundo, sem furores caritativos ou vocações martirológicas. Sua vida parecia simplesmente normal.
Meu jovem amigo comentou que, se estivesse no lugar dela, já teria acabado com sua própria vida. Essa ideia, concordei, passaria por qualquer cabeça. Mas por que a professora não foi por esse caminho? O insuportável numa doença como essa, afirmou então meu interlocutor, são os limites, as impotências.
Observei-lhe então que há uma infinidade de coisas que não conseguimos fazer. Afinal, não sei voar, nem ficar por respirar mais que dois minutos. Com paciência condescendente, meu amigo explicou que essas são coisas que ninguém, ou quase ninguém, consegue fazer. O que dói, acrescentou, é não conseguir fazer as coisas que os outros conseguem. E declarou que, se tivesse uma invalidez grave, talvez pudesse seguir vivendo, mas só entre pessoas tão inválidas quanto ele. Conclusão da conversa: o problema não é a invalidez, o problema são os outros. Melhor dizendo, a necessidade de se comparar aos outros.
De todo modo, ficamos sem apurar que tipo de energia animava aquela prejudicada professora, excepcionalmente apta e disposta a só compartilhar o que tinha de positivo.
(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Terra de ninguém. São Paulo: Publifolha, 2004, p. 70-71)
No 3º parágrafo, ao considerar que todos nós temos limites, o autor se deparou com a seguinte posição defendida pelo jovem amigo:
- Aos males que acometem as outras pessoas passam a ser nossos, quando não os avaliamos com lucidez crítica.
- Btodo sofrimento compartilhado tende a ir diminuindo na medida em que as pessoas se deem conta de sua inevitabilidade.
- Cas pessoas potenciam nossos males, quando não buscam entender a injustiça que se entranha na condenação que nos aflige.
- Da ninguém deve animar a esperança de que sua invalidez se apequene diante da invalidez de muitos outros.
- Eos males que nos afligem podem tornar-se suportáveis quando na mesma medida afligirem os nossos semelhantes. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
O conceito-chave aqui é a percepção do sofrimento e como ela é influenciada pela comparação social. O texto explora a ideia de que a dor de uma limitação física pode ser mais ou menos suportável dependendo se a pessoa se compara ou não com aqueles que não possuem a mesma limitação.
- (A) Incorreta: Esta alternativa fala sobre avaliar os males dos outros, enquanto o foco do amigo é sobre seus próprios males e como ele os percebe em comparação com os outros.
- (B) Incorreta: Embora o amigo mencione a ideia de viver entre pessoas igualmente inválidas (um tipo de "sofrimento compartilhado"), a razão para a diminuição do sofrimento, segundo ele, não é a "inevitabilidade", mas sim a ausência de comparação desfavorável com os não-inválidos. A armadilha aqui é que usa um termo ("sofrimento compartilhado") que remete à ideia do amigo, mas distorce a razão pela qual isso aliviaria o sofrimento.
- (C) Incorreta: O amigo não fala sobre a falta de entendimento dos outros sobre a "injustiça" de sua condição, mas sim sobre o impacto da comparação com a capacidade dos outros.
- (D) Incorreta: Esta alternativa apresenta uma afirmação de caráter normativo ("a ninguém deve animar a esperança"), enquanto o texto descreve a posição do amigo sobre o que tornaria sua vida suportável, não uma regra moral.
- (E) Correta: Esta alternativa reflete diretamente a fala do amigo no 3º parágrafo: "se tivesse uma invalidez grave, talvez pudesse seguir vivendo, mas só entre pessoas tão inválidas quanto ele". Isso significa que os males (a invalidez) se tornariam suportáveis se os semelhantes (outras pessoas) também fossem afligidos na mesma medida, eliminando a comparação que o incomoda.
Fonte: FCC TRT7 2024 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 002). Reproduzida para fins de estudo.