Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT7 2024 (nº 6)
Um diálogo instrutivo
Muitos entusiastas da Inteligência Artificial (IA) continuam a insistir na venda da utopia de que as máquinas digitais não só serão capazes de simular a inteligência humana como, eventualmente, poderão superar a todos nós no nosso próprio jogo, o jogo de pensar, se comportar e viver como seres humanos. Costumo, nas minhas aulas, utilizar um diálogo hipotético entre um neurocientista (N) e um pesquisador da área de inteligência artificial (PIA) para ilustrar o abismo que separa aqueles que, como eu, acreditam ser bem-vindo o uso da tecnologia para promover a melhoria da qualidade de vida das pessoas e aqueles que trabalham apenas com o objetivo de concretizar uma distopia. Eis aqui um momento desse diálogo:
N — Como você programaria o conceito de beleza em uma máquina da IA?
PIA — Defina um conceito de beleza para mim e eu posso programá-lo.
N — Esse é o problema central. Eu não posso definir beleza — você também não pode, tampouco outro ser humano que jamais viveu e experimentou a sensação de deparar-se com a beleza.
PIA — Se você não pode defini-la de forma precisa, não posso programá-la, ela simplesmente não interessa. Ela não existe. E, como cientista computacional, não me importo com ela.
N — A sua mãe ou sua filha são bonitas?
PIA — Sim, elas são.
N — E você pode definir por quê?
PIA — Não, eu não posso. Não posso programar a minha experiência subjetiva e pessoal no meu computador. Portanto, ela não existe nem significa nada do ponto de vista científico.
N — Isso quer dizer que como você não pode quantificar a sensação de encontrar uma face bela, essa sensação é irrelevante?
PIA — Basicamente, sim! Você entendeu o meu ponto de vista.
Assustador como esse diálogo pode soar, quando milhões de pessoas vivendo nestes tempos modernos já decidiram que qualquer coisa que uma máquina não possa fazer é irrelevante para a humanidade.
(Adaptado de NICOLELIS, Miguel. O verdadeiro criador de tudo. São Paulo: Planeta, 2020, p. 163-164)
É adequado o emprego de ambos os elementos sublinhados na frase:
- ADesse diálogo, do qual não faltaram argumentos a que ambos se empenharam, não resultou conclusão definitiva.
- BOs entusiastas da IA consideram-lhe uma instância do saber aonde se instalou a infalibilidade.
- CO diálogo de que se vale o neurologista tem o propósito de medir forças com o pesquisador do mundo virtual. (alternativa correta)
- DQuanto à beleza, que sua definição se mostra tão difícil, atribuem-na pouca importância os entusiastas da IA.
- EA importância da IA, por cuja tantos se deixam arrebatar, não levou o neurologista a lhe aceitá-la na mesma medida.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Pronomes e conectivos são elementos gramaticais que estabelecem relações entre palavras e orações, evitando repetições e garantindo a coesão textual, mas seu uso exige atenção à regência verbal ou nominal (preposição exigida) e à função sintática (objeto direto/indireto).
(A) Incorreta: O verbo "faltar", no sentido de "não haver", não exige a preposição "de"; seria "no qual" ou "em que" (no diálogo não faltaram argumentos). O verbo "empenhar-se" rege a preposição "em" (empenhar-se em algo), portanto, deveria ser "em que" ou "no qual" e não "a que".
(B) Incorreta: O verbo "considerar" é transitivo direto (considerar algo), exigindo o pronome oblíquo "o/a" (consideram-no). O advérbio "aonde" indica movimento com destino (ir a algum lugar), enquanto "instalar-se" indica lugar fixo, pedindo "onde" ou "no qual".
(C) Correta: O verbo "valer-se" (no sentido de utilizar) exige a preposição "de" (valer-se de algo), o que torna "de que" adequado. A expressão "medir forças" é corretamente acompanhada pela preposição "com" para indicar o adversário (medir forças com alguém).
(D) Incorreta: Para indicar posse, o correto seria o pronome relativo "cuja" (a beleza, cuja definição...). O verbo "atribuir" é transitivo direto e indireto (atribuir algo a alguém/algo); a forma "atribuem-na" está incorreta, pois "na" é a contração de "em" + "a" ou "o" + "a", e aqui o pronome deveria ser "lhe" (referindo-se à beleza, objeto indireto) ou "a" (se substituísse "importância", que é objeto direto). A armadilha da banca reside na confusão entre "que sua" e "cuja", e no uso inadequado do pronome "na" para substituir o objeto indireto "à beleza".
(E) Incorreta: A preposição "por" deve se ligar ao pronome relativo "qual" (pela qual), pois "arrebatar-se" rege "por" (arrebatar-se por algo). O verbo "aceitar" é transitivo direto; o uso de "lhe" (objeto indireto) junto com "a" (objeto direto, em "aceitá-la") é redundante e incorreto.
Fonte: FCC TRT7 2024 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 002). Reproduzida para fins de estudo.