Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT7 2024 (nº 2)
Um diálogo instrutivo
Muitos entusiastas da Inteligência Artificial (IA) continuam a insistir na venda da utopia de que as máquinas digitais não só serão capazes de simular a inteligência humana como, eventualmente, poderão superar a todos nós no nosso próprio jogo, o jogo de pensar, se comportar e viver como seres humanos. Costumo, nas minhas aulas, utilizar um diálogo hipotético entre um neurocientista (N) e um pesquisador da área de inteligência artificial (PIA) para ilustrar o abismo que separa aqueles que, como eu, acreditam ser bem-vindo o uso da tecnologia para promover a melhoria da qualidade de vida das pessoas e aqueles que trabalham apenas com o objetivo de concretizar uma distopia. Eis aqui um momento desse diálogo:
N — Como você programaria o conceito de beleza em uma máquina da IA?
PIA — Defina um conceito de beleza para mim e eu posso programá-lo.
N — Esse é o problema central. Eu não posso definir beleza — você também não pode, tampouco outro ser humano que jamais viveu e experimentou a sensação de deparar-se com a beleza.
PIA — Se você não pode defini-la de forma precisa, não posso programá-la, ela simplesmente não interessa. Ela não existe. E, como cientista computacional, não me importo com ela.
N — A sua mãe ou sua filha são bonitas?
PIA — Sim, elas são.
N — E você pode definir por quê?
PIA — Não, eu não posso. Não posso programar a minha experiência subjetiva e pessoal no meu computador. Portanto, ela não existe nem significa nada do ponto de vista científico.
N — Isso quer dizer que como você não pode quantificar a sensação de encontrar uma face bela, essa sensação é irrelevante?
PIA — Basicamente, sim! Você entendeu o meu ponto de vista.
Assustador como esse diálogo pode soar, quando milhões de pessoas vivendo nestes tempos modernos já decidiram que qualquer coisa que uma máquina não possa fazer é irrelevante para a humanidade.
(Adaptado de NICOLELIS, Miguel. O verdadeiro criador de tudo. São Paulo: Planeta, 2020, p. 163-164)
No diálogo travado entre um neurocientista (N) e um pesquisador da área de Inteligência Artificial (PIA), o conceito de beleza é
- Aintrigante para ambos, embora o pesquisador aceite o mistério do que é belo com maior naturalidade do que o neurocientista.
- Birrelevante para ambos, uma vez que a experiência estética é aceita como uma vivência menor no âmbito da ciência humana.
- Cindefinível para ambos, mas divergem frontalmente quanto à importância e à relevância da experiência do que é belo. (alternativa correta)
- Dinequívoco para ambos, mantendo-se o neurologista mais cauteloso em sua definição do que o pesquisador.
- Einsustentável para ambos, uma vez que reconhecem não haver como definir beleza natural ou beleza artificial.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O ponto central do diálogo é a diferença de perspectiva sobre a validade e importância de conceitos subjetivos, como a beleza, que não podem ser definidos ou quantificados por máquinas.
(A) Incorreta: O pesquisador de IA (PIA) não aceita o mistério; ele o descarta como irrelevante e inexistente se não puder ser programado. O neurocientista (N) é quem lida com o mistério, valorizando a experiência mesmo sem definição.
(B) Incorreta: A experiência estética é irrelevante para o PIA, mas não para o N, que a defende implicitamente como parte essencial da experiência humana, mesmo que não quantificável. O texto final do autor reforça a importância dessa experiência.
(C) Correta: Ambos, N e PIA, admitem que não conseguem definir a beleza de forma precisa ("Eu não posso definir beleza" - N; "Se você não pode defini-la de forma precisa, não posso programá-la" - PIA). No entanto, eles divergem radicalmente: o PIA considera que, se não pode ser definida e programada, a beleza "não interessa", "não existe" e é "irrelevante" do ponto de vista científico. Já o N, e o autor do texto, defendem a relevância e a importância dessa experiência humana, mesmo que subjetiva e indefinível.
(D) Incorreta: O conceito de beleza é explicitamente não inequívoco para ambos; é justamente a dificuldade de defini-lo que gera o conflito.
(E) Incorreta: Embora reconheçam a dificuldade de definir beleza, a alternativa foca na distinção entre "beleza natural ou beleza artificial", que não é o ponto principal da discussão sobre a indefinibilidade do conceito em si. A palavra "insustentável" também não capta a nuance da divergência sobre a importância da beleza.
Fonte: FCC TRT7 2024 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 002). Reproduzida para fins de estudo.