Questão nº 11

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT7 2024 (nº 11)

FCC2024Técnico Judiciário - Área AdministrativaLíngua Portuguesa
Gabarito: Aver comentário ↓

[Vida a compartilhar]

Um jovem amigo meu é uma pessoa exasperada e deprimida. Na semana passada, ele foi atraído por uma história edificante. Uma escola americana dedicara um anfiteatro a uma professora de escola fundamental que, depois de uma longa carreira de ensino, foi paralisada por uma distrofia muscular, e seguiu ensinando. Quando perdeu a voz, passou a ensinar surdos-mudos. Na reportagem, ela estranhava a atenção e os elogios: era uma mulher em paz consigo mesma e com o mundo, sem furores caritativos ou vocações martirológicas. Sua vida parecia simplesmente normal.

Meu jovem amigo comentou que, se estivesse no lugar dela, já teria acabado com sua própria vida. Essa ideia, concordei, passaria por qualquer cabeça. Mas por que a professora não foi por esse caminho? O insuportável numa doença como essa, afirmou então meu interlocutor, são os limites, as impotências.

Observei-lhe então que há uma infinidade de coisas que não conseguimos fazer. Afinal, não sei voar, nem ficar por respirar mais que dois minutos. Com paciência condescendente, meu amigo explicou que essas são coisas que ninguém, ou quase ninguém, consegue fazer. O que dói, acrescentou, é não conseguir fazer as coisas que os outros conseguem. E declarou que, se tivesse uma invalidez grave, talvez pudesse seguir vivendo, mas só entre pessoas tão inválidas quanto ele. Conclusão da conversa: o problema não é a invalidez, o problema são os outros. Melhor dizendo, a necessidade de se comparar aos outros.

De todo modo, ficamos sem apurar que tipo de energia animava aquela prejudicada professora, excepcionalmente apta e disposta a só compartilhar o que tinha de positivo.

(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Terra de ninguém. São Paulo: Publifolha, 2004, p. 70-71)


A história edificante, referida no primeiro parágrafo, provocou no jovem amigo do autor uma

Resposta comentada

Gabarito Alternativa A

A compreensão global de um texto exige que o leitor identifique a ideia central, as relações entre os elementos apresentados e o propósito do autor, captando o sentido geral da mensagem.

  • (A) Correta: A história da professora leva o jovem amigo a uma avaliação pessoal ("se estivesse no lugar dela, já teria acabado com sua própria vida"). Ele reconhece sua incapacidade para superar um limite seu (as "impotências" e "limites" que ele considera insuportáveis) em contraste com a professora, que continua a viver e ensinar (ações que podem ser vistas como decisões altruístas, ao compartilhar o que tinha de positivo com os alunos, mesmo em sua condição).
  • (B) Incorreta: O amigo não vê a conduta da professora como um "mau exemplo". Pelo contrário, a história é "edificante". Ele já era "exasperada e deprimida" antes da história, e sua reação é de contraste com a professora, não de crítica a ela.
  • (C) Incorreta: A reação do amigo não é "positiva". Ele expressa desespero em relação à sua própria capacidade de lidar com a situação, afirmando que tiraria a própria vida, o que não é uma reação positiva, mesmo que ele reconheça a resiliência da professora.
  • (D) Incorreta: O amigo não demonstra "resposta compassiva" nem se torna um "ardoroso admirador". A professora é descrita como alguém "sem furores caritativos ou vocações martirológicas", e a reação do amigo é introspectiva sobre sua própria incapacidade, não de admiração pelo sofrimento alheio.
  • (E) Incorreta: O amigo não faz uma "censura discreta". Além disso, o texto explicitamente afirma que a professora não tinha "vocações martirológicas", desmentindo a ideia de que sua escolha seria um "martírio caridoso" na visão dela ou do narrador, e o amigo não a interpreta dessa forma.

Fonte: FCC TRT7 2024 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 002). Reproduzida para fins de estudo.

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