Questão nº 55
Questão de Língua Portuguesa · FCC SEDU-ES 2022 (nº 55)
Atenção: Para responder às questões de números 52 a 55, baseie-se nas quatro estrofes abaixo, extraídas do poema "Graciliano Ramos:", de João Cabral de Melo Neto. O poema é um tributo ao autor de Vidas secas, com cuja linguagem João Cabral se mostra bastante identificado.
Graciliano Ramos:
Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
girando ao redor do sol
que as limpa do que não é faca[...]
Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens,
Nordestes, debaixo de um sol
ali do mais quente vinagre[...]
Falo somente por quem falo:
por quem existe nesses climas
condicionados pelo sol,
pelo gavião e outras rapinas[...]
Falo somente para quem falo:
quem padece sono de morto
e precisa um despertador
acre, como o sol sobre o olho
Atentando para o nível expressivo e figurativo desse poema, deve-se reconhecer que
Este texto de apoio vale também pra questão nº 52, questão nº 53, questão nº 54.
- Aa reiteração da imagem do sol nessa fala é também um combate contra a obscuridade de outros falares. (alternativa correta)
- Ba referência ao despertador ironiza a falácia do alerta que um escritor imagina promover em seu discurso.
- Ca faca é utilizada para figurar a violência indesejável que por vezes se constata entre as próprias vítimas do flagelo climático.
- Da expressão por quem falo aplica-se aos leitores que desconhecem o drama social representado nessa estrofe.
- Ea palavra Nordestes, utilizadas no plural, deixa de ser uma tipificação, aplicando-se às mais diferentes regiões do país.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
O nível expressivo e figurativo de um poema refere-se ao uso de figuras de linguagem (como metáforas, comparações, personificações) e outros recursos estilísticos que enriquecem o texto, dando-lhe múltiplos sentidos além do literal e intensificando a mensagem.
(A) Correta: A reiteração da imagem do sol em todas as estrofes, com conotações de limpeza ("limpa do que não é faca"), aspereza ("quente vinagre", "acre"), e revelação ("sobre o olho"), simboliza uma linguagem direta, sem rodeios, que busca expor a realidade de forma nítida e contundente, combatendo a obscuridade ou a superficialidade de outros falares.
(B) Incorreta: A referência ao despertador não ironiza a falácia do alerta, mas sim enfatiza a necessidade de um chamado urgente e impactante ("acre, como o sol sobre o olho") para despertar aqueles que estão em "sono de morto", ou seja, alheios à realidade ou oprimidos por ela.
(C) Incorreta: A faca na primeira estrofe ("limpa do que não é faca") é uma metáfora para a precisão, a essência e a objetividade da linguagem do poeta, que corta o supérfluo, não para figurar a violência entre as vítimas.
(D) Incorreta: A expressão por quem falo (terceira estrofe) refere-se explicitamente "por quem existe nesses climas / condicionados pelo sol, / pelo gavião e outras rapinas", ou seja, pelas pessoas que sofrem as condições adversas do Nordeste, e não aos leitores que desconhecem o drama.
(E) Incorreta: A palavra Nordestes no plural sugere a diversidade de paisagens e realidades dentro da própria região Nordeste ou a universalização de suas condições para outras regiões análogas, mas não deixa de ser uma tipificação; pelo contrário, reforça a complexidade e a abrangência do tema Nordeste.
Fonte: FCC SEDU-ES 2022 Professor B - Língua Portuguesa (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.