Questão nº 51
Questão de Língua Portuguesa · FCC SEDU-ES 2022 (nº 51)
Atenção: Para responder às questões de números 48 a 51, baseie-se no texto abaixo.
Ai de ti, Ipanema
Há muitos anos, Rubem Braga começava assim uma de suas mais famosas crônicas: "Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas." Era uma exortação bíblica, apocalíptica, profética, ainda que irônica e hiperbólica. "Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum."
Na sua condenação, o Velho Braga antevia os sinais da degradação e da dissolução moral de um bairro prestes a ser tragado pelo pecado e afogado pelo oceano, sucumbindo em meio às abjeções e ao vício: "E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face".
A praia já chamada de "princesinha do mar", coitada, inofensiva e pura, era então, como Ipanema seria depois, a síntese mítica do hedonismo carioca, mais do que uma metáfora, uma metonímia.
No fim dos anos 50, Copacabana era o éden não contaminado ainda pelos plenos pecados, eram tempos idílicos e pastorais, a era da inocência, da bossa nova, dos anos dourados de JK, de Garrincha. Digo eu agora: Ai de ti, Ipanema, que perdeste a inocência e o sossego, e tomaste o lugar de Copacabana, e não percebeste os sinais que não são mais simbólicos: o emissário submarino se rompendo, as águas poluídas, as valas negras, as agressões, os assaltos, o medo e a morte.
(Adaptado de: VENTURA, Zuenir. Crônicas de um fim de século. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999, p. 166/167)
Ao qualificar a linguagem de Rubem Braga em sua crônica "Ai de ti, Copacabana", Zuenir Ventura se vale dos termos exortação e condenação, para reconhecer no texto do Velho Braga,
Este texto de apoio vale também pra questão nº 48, questão nº 49, questão nº 50.
- Aa tonalidade grave de uma invectiva. (alternativa correta)
- Ba informalidade de um discurso emocional.
- Co coloquialismo de um lírico confessional.
- Da retórica argumentativa dos clássicos.
- Ea força épica de uma celebração.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Quando Zuenir Ventura usa os termos exortação e condenação para descrever a linguagem de Rubem Braga, ele se refere a um tipo de discurso que é um chamado forte, uma advertência solene e um juízo negativo sobre algo. Uma invectiva é exatamente isso: um discurso ou ataque verbal veemente, uma censura grave e agressiva.
- (A) Correta: A tonalidade grave de uma invectiva encaixa-se perfeitamente. A "exortação bíblica, apocalíptica, profética" e a "condenação" da degradação e dissolução moral, com a previsão de um fim trágico ("os escuros peixes nadarão nas tuas ruas"), demonstram um tom sério, pesado e de censura veemente, que é a essência de uma invectiva.
- (B) Incorreta: A linguagem de Braga, conforme descrita por Ventura ("bíblica, apocalíptica, profética"), tem um caráter solene e elevado, o oposto de informalidade. Embora haja emoção, a forma não é informal.
- (C) Incorreta: O texto de Braga não apresenta coloquialismo (linguagem do dia a dia), mas sim um estilo mais formal e grandioso. Também não é primariamente um lírico confessional, pois o foco é a denúncia e a advertência a Copacabana, e não a expressão íntima de sentimentos do autor sobre si mesmo.
- (D) Incorreta: Embora haja retórica, o texto é mais uma profecia e uma denúncia veemente do que uma argumentação estruturada e lógica, típica dos clássicos, que busca persuadir por meio de razões e provas. É mais uma declaração de um destino.
- (E) Incorreta: O texto de Braga é uma condenação e uma advertência sobre a degradação, o que é o oposto de uma celebração. A "força épica" pode até existir na grandiosidade da linguagem, mas o propósito não é celebrar.
Fonte: FCC SEDU-ES 2022 Professor B - Língua Portuguesa (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.