Questão nº 14
Questão de Língua Portuguesa · FCC MPMT 2019 (nº 14)
Antropologia reversa
É sempre tarefa difícil – no limite, impossível – compreender o outro não a partir de nós mesmos, ou seja, de nossas categorias e preocupações, mas de sua própria perspectiva e visão de mundo. “Quando os antropólogos chegam”, diz um provérbio haitiano, “os deuses vão embora”.
Os invasores coloniais europeus, com raras exceções, consideravam os povos autóctones do Novo Mundo como crianças amorais ou boçais supersticiosos – matéria escravizável. Mas como deveriam parecer aos olhos deles aqueles europeus? “Onde quer que os homens civilizados surgissem pela primeira vez”, resume o filósofo romeno Emil Cioran, “eles eram vistos pelos nativos como demônios, como fantasmas ou espectros, nunca como homens vivos! Eis uma intuição inigualável, um insight profético, se existe um”.
O líder ianomâmi Davi Kopenawa, porta-voz de um povo milenar situado no norte da Amazônia e ameaçado de extinção, oferece um raro e penetrante registro contra-antropológico do mundo branco com o qual tem convivido: “As mercadorias deixam os brancos eufóricos e esfumaçam todo o resto em suas mentes [...] Seu pensamento está tão preso a elas, são de fato apaixonados por elas! Dormem pensando nelas, como quem dorme com a lembrança saudosa de uma bela mulher. Elas ocupam seu pensamento por muito tempo, até vir o sono. Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham consigo mesmos”.
(Adaptado de GIANETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 118-119)
Estão plenamente adequados o emprego e a colocação pronominal na frase:
- AAinda que não atenham-se aos princípios que regem a cultura nativa, os colonizadores deveriam respeitar-lhes na diferença que lhes constitui.
- BAo ver os nativos, os colonizadores lhes julgam como crianças amorais e supersticiosas, imputando-as uma extrema ingenuidade.
- CDiante dos nativos, os colonizadores consideram-nos incapazes de constituir uma cultura equivalente àquela dos europeus. (alternativa correta)
- DA cultura europeia, de cuja os colonizadores tanto se orgulham, tem pouco a ver com a dos nativos, que também lhes vangloriam.
- ESe afastando dos valores de uma cultura, acaba-se por desconsiderá-la a importância que ela deve ter a partir de si mesma.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Colocação pronominal é a regra que define a posição dos pronomes oblíquos átonos (me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes) em relação ao verbo, podendo ser antes (próclise), no meio (mesóclise) ou depois (ênclise), conforme fatores gramaticais e eufonia.
- (A) Incorreta: Há erros de próclise ("não se atenham" em vez de "não atenham-se") e de regência/uso do pronome ("respeitá-los" em vez de "respeitar-lhes"; "os constitui" em vez de "lhes constitui").
- (B) Incorreta: Há erros de regência/uso do pronome. O verbo "julgar" é transitivo direto, pedindo "os" (os julgam) e não "lhes". O verbo "imputar" (imputar algo a alguém) pede objeto indireto para a pessoa, então seria "imputando-lhes" (a eles/elas) e não "imputando-as". Armadilha: "imputando-as" é um distrator tentador porque "as" se refere às "crianças", mas o erro está na regência do verbo: a ingenuidade é imputada às crianças (objeto indireto), não as crianças são imputadas (objeto direto).
- (C) Correta: A colocação pronominal "consideram-nos" está plenamente adequada. O verbo "considerar" é transitivo direto, e "nos" (forma de "os") atua como objeto direto, referindo-se aos nativos. A ênclise é permitida aqui, pois não há palavra atrativa que exija próclise e o verbo não está no futuro.
- (D) Incorreta: Há erro no uso do pronome relativo ("de cuja os" deveria ser "de que" ou "de cuja cultura"). Há erro de regência e colocação pronominal em "lhes vangloriam", pois o verbo "vangloriar-se" é pronominal e exige "se" (se vangloriam), com próclise devido ao "que".
- (E) Incorreta: Há erro de próclise em "Se afastando", pois não se inicia frase com pronome oblíquo átono (o correto é "Afastando-se"). Há erro de redundância e construção em "desconsiderá-la a importância", pois o pronome "la" é desnecessário ou mal empregado, já que o objeto direto "a importância" está explícito.
Fonte: FCC MPMT 2019 Promotor de Justiça Substituto (Caderno Tipo 002). Reproduzida para fins de estudo.