Questão nº 9
Questão de Língua Portuguesa · FCC MPEPE 2018 (nº 9)
Gatos, cães e gêneros literários
Ao contrário dos cães, gatos não fazem festa nem estardalhaço, não são excessivamente carentes de afeto, podem dormir e sonhar por um século e esquecer o mundo ao redor. Não por acaso, um ditado chinês diz: "O cachorro é um romance, e o gato, um poema".
Nesse sábio ditado oriental reside uma delicada definição de gêneros literários. Pense no cotidiano de um cão: as peripécias, o corre-corre, os momentos de exaltação e melancolia, ganidos de dor, saltos estabanados, ataques de raiva... Agora imagine o discreto cotidiano de um gato: a pose hierática, a atitude ensimesmada, o salto sem ruído, a expressão misteriosa do olhar, a repetição dos gestos, o olhar em transe, fitando as asas de um inofensivo beija-flor... O gato encarna uma subjetividade lírica que reitera o ditado chinês.
(Adaptado de: HATOUM, Milton. Um solitário à espreita. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 209)
Há adequada correlação entre os tempos verbais e pleno atendimento às normas de concordância na frase:
- AHouvesse no gato e no cachorro outros atributos característicos desses animais, não seria aceitável a analogia que faz o ditado chinês entre eles e os gêneros literários. (alternativa correta)
- BCaso não se compreenda bem as distinções entre prosa e poesia, não seria fácil distinguir entre as alusões que o ditado chinês faz ao comportamento do gato e do cachorro.
- CAs atribuições em que se empenham o ditado chinês para distinguir entre cachorro e gato dificilmente fossem compreensíveis sem a consciência do que seja as artes da poesia e da prosa.
- DSe o cachorro encarnasse alguns dos atributos da poesia e o gato alguns da prosa, o ditado chinês poderá ser contestado quanto às analogias que promovem.
- EÀ medida que fôssemos observando o comportamento do cachorro e do gato, seremos levados a concordar com o que se asseguram nas palavras do ditado chinês.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A correlação verbal é a relação lógica e gramatical entre os tempos e modos dos verbos em uma frase, garantindo sentido e coesão. A concordância verbal é a adaptação do verbo ao seu sujeito em número e pessoa.
(A) Correta: A frase apresenta a correlação verbal adequada entre o pretérito imperfeito do subjuntivo ("Houvesse", indicando condição hipotética) e o futuro do pretérito do indicativo ("não seria aceitável", indicando a consequência dessa hipótese). A concordância verbal está correta: "Houvesse" (verbo impessoal no sentido de existir, no singular), "seria aceitável a analogia" (verbo concorda com "a analogia"), e "faz o ditado chinês" (verbo concorda com "o ditado chinês").
(B) Incorreta: Há um erro de concordância verbal em "Caso não se compreenda bem as distinções"; o correto seria "Caso não se compreendam", pois "as distinções" é o sujeito paciente (o "se" é partícula apassivadora).
(C) Incorreta: Apresenta múltiplos erros de concordância verbal: "em que se empenham o ditado chinês" (o correto seria "empenha", pois o sujeito é "o ditado chinês") e "do que seja as artes" (o correto seria "sejam", pois o sujeito é "as artes").
(D) Incorreta: A correlação verbal entre "Se o cachorro encarnasse" (pretérito imperfeito do subjuntivo, indicando hipótese) e "o ditado chinês poderá ser contestado" (futuro do presente do indicativo) é inadequada. Para uma hipótese no passado ou contrafactual expressa pelo pretérito imperfeito do subjuntivo, a consequência esperada é no futuro do pretérito do indicativo ("poderia ser contestado").
(E) Incorreta: Há um erro de correlação verbal entre "À medida que fôssemos observando" (pretérito imperfeito do subjuntivo) e "seremos levados" (futuro do presente do indicativo). A correlação correta para "fôssemos" seria "seríamos levados". Além disso, há um erro de concordância em "o que se asseguram nas palavras" (o correto seria "assegura", pois o sujeito "o que" está no singular).
Fonte: FCC MPEPE 2018 Analista Ministerial - Área Jurídica (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.