Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC MPEPE 2018 (nº 2)
Ciência e mercado
A ciência moderna e a economia de mercado figuram, sem o menor favor, entre as mais notáveis e fecundas realizações humanas. A civilização europeia oriunda do Renascimento é inconcebível sem elas; a Revolução Científica do século XVII e a Revolução Industrial do século XVIII foram apenas o prelúdio singelo do que viria em seguida – a revolução permanente dos últimos três séculos.
Ciência e mercado são apostas na liberdade: liberdade balizada por padrões impessoais de argumentação e validação de teorias, no primeiro caso; e por regras que fixam os marcos dentro dos quais a busca do ganho econômico por parte das pessoas é livre, no segundo. Por mais brilhantes, entretanto, que sejam suas inegáveis conquistas, é preciso ter uma visão clara do que podemos esperar que façam ou não por nós: assim como a ciência jamais aplacará a nossa fome de sentido, o mercado nada nos diz sobre a ética – como usar a nossa liberdade e o que fazer de nossas vidas. O mercado não decide, em nome dos que nele atuam, os resultados finais das operações; isso dependerá sobretudo dos valores e das escolhas das pessoas. Assim como, na linguagem comum, a gramática não determina o valor das mensagens, mas apenas as regras das interações verbais, também o mercado não estabelece de antemão o que será feito e escolhido pelos que dele participam, mas apenas as normas dentro das quais isso será feito.
(Adaptado de: GIANETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 51-52)
A analogia entre a gramática e o mercado, feita pelo autor ao final do texto, baseia-se na consideração de que
- Aas trocas regradas pela primeira, que estipulam o sentido da linguagem, são semelhantes às que dão sentido ético ao mercado.
- Ba linguagem de que nos valemos está carregada dos valores que devemos levar em conta para qualificar o sentido que o mercado deve ter.
- Cambos os elementos constituem uma linguagem objetiva, pela qual nós devemos nos guiar para estabelecer com clareza o sentido de nossas escolhas.
- Das regras de funcionamento estabelecidas nessas duas instâncias não predeterminam por si mesmas a significação daquilo que produzem. (alternativa correta)
- Eas normas que disciplinam o uso da linguagem e o objetivo do mercado constituem uma espécie de gramática que determina o sentido de uma e de outro.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
O conceito-chave da analogia é que as regras de um sistema (como a gramática para a linguagem ou as normas para o mercado) fornecem uma estrutura, mas não definem o conteúdo ou o significado final que os usuários ou participantes darão a ele.
- (A) Incorreta: A armadilha aqui é que a alternativa inverte o que o texto diz. O texto afirma que a gramática não determina o valor das mensagens e que o mercado nada nos diz sobre a ética. Portanto, as regras não estipulam o sentido nem dão sentido ético, mas sim os participantes.
- (B) Incorreta: A alternativa foca nos valores da linguagem e como eles deveriam qualificar o mercado, o que não é o ponto da analogia. A analogia é sobre a função das regras, não sobre o conteúdo de valores.
- (C) Incorreta: O texto não apresenta gramática e mercado como "linguagens objetivas" que nos guiam para clareza nas escolhas. Pelo contrário, ele enfatiza que eles não determinam o valor ou as escolhas.
- (D) Correta: Esta alternativa capta perfeitamente a essência da analogia. O texto afirma que "a gramática não determina o valor das mensagens" e que "o mercado não estabelece de antemão o que será feito e escolhido pelos que dele participam". Ou seja, as regras (gramática, normas do mercado) não predeterminam o significado ou o resultado final; isso depende dos usuários e suas escolhas.
- (E) Incorreta: Esta alternativa contradiz diretamente o texto. Ela afirma que as normas "determinam o sentido", quando o texto explicitamente diz que nem a gramática nem o mercado determinam o valor ou o que será feito/escolhido.
Fonte: FCC MPEPE 2018 Analista Ministerial - Área Jurídica (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.