Questão nº 9
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-RS 2017 (nº 9)
Atenção: As questões de números 9 a 15 referem-se ao texto seguinte.
[O invejável tédio europeu]
Os filmes dos cineastas europeus Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman, que a gente via e discutia com tanta seriedade tantos anos atrás, também eram uma forma de escapismo. Tanto quanto o musical e a comédia, aquelas histórias de tédio e indagações existenciais nos distraíam das exigências menores do cotidiano. Fugíamos não para um mundo cor-de-rosa, mas para outro matiz de preto, bem mais fascinante do que o das nossas pequenas aflições. Nenhum dos personagens do italiano Antonioni ou do sueco Bergman, embora enfrentassem seu vazio interior e a frieza de um universo indiferente, parecia ter qualquer problema com o aluguel.
Claro, o deserto emocional em que viviam os personagens do Antonioni, por exemplo, era o deserto metafórico do capitalismo, uma civilização arrasada por si mesma. Mas estavam todos empregados e ganhavam bem. E como era fotogênico o seu suplício. Com Bergman experimentamos o horror de existir, a terrível verdade de que somos uma espécie corrupta sem redenção possível e que a morte torna tudo sem sentido. Hoje suspeitamos de que se Bergman não vivesse na Suécia, com educação, saúde e bem-estar garantidos do ventre até o túmulo, ele não diria isso. É preciso estar livre das dificuldades da vida para poder concluir, com um mínimo de estilo, que a vida é impossível. Tínhamos uma secreta inveja desses europeus tão bem-sucedidos no seu desespero. Não tínhamos a mesma admiração por filmes em que as pessoas se preocupavam não com a ausência de Deus, mas com o pagamento no fim do mês.
Não há equivalência possível entre morrer de tédio e morrer de fome. Mas às vezes eu ainda me pego sonhando em sueco com uma sociedade pronta, sem qualquer destes desafios tropicais, em que a gente pudesse finalmente ser um personagem de Bergman, enojado apenas com tudo e nada mais.
(VERISSIMO, Luis Fernando. Banquete com os deuses. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003, p. 85-86)
Em síntese, o autor do texto, ao se lembrar dos filmes de clássicos cineastas europeus,
Este texto de apoio vale também pra questão nº 10, questão nº 11, questão nº 12, questão nº 13, questão nº 14, questão nº 15.
- Alamenta, sem esquecer o humor, que o cinema nacional não tenha alcançado o alto nível técnico das produções estrangeiras voltadas para os tormentos psicológicos.
- Breconhece nas obras de Antonioni e Bergman as qualidades de uma arte realista e culta, que aprofunda e analisa os detalhes da vida prática.
- Cexpõe ironicamente o abismo que existe entre as questões tratadas nos filmes de Bergman e Antonioni e as preocupações mais prosaicas da vida comum. (alternativa correta)
- Ddemonstra, com muita lucidez, que a arte europeia, ao contrário da nossa, preocupa-se essencialmente com os problemas socioeconômicos que afligem o nosso tempo.
- Econclui, com algum sarcasmo, que o cinema europeu é pouco relevante para quem queira tirar os olhos do cotidiano e explorar em abstrato as aflições existenciais.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O conceito-chave aqui é a ironia do autor ao contrastar as preocupações existenciais dos personagens de filmes europeus com as dificuldades práticas da vida real, sugerindo que o "tédio" europeu é um luxo que só quem não tem problemas básicos pode se dar.
(A) Incorreta: O texto não faz uma comparação técnica ou de nível entre o cinema nacional e o europeu; o foco é no tipo de problema abordado e no contexto social que permite tais abordagens.
(B) Incorreta: Embora reconheça a seriedade e o caráter "cult" das obras, o autor contrasta as indagações existenciais dos filmes com os "detalhes da vida prática" (como o aluguel ou o pagamento no fim do mês), e não afirma que os filmes aprofundam esses detalhes.
(C) Correta: O autor utiliza a ironia para destacar a distância entre as angústias metafísicas e filosóficas dos personagens de Bergman e Antonioni (o vazio interior, o horror de existir, a ausência de Deus) e as preocupações mundanas e urgentes da vida comum (problemas com o aluguel, pagamento no fim do mês, morrer de fome). Ele sugere que o desespero existencial dos europeus é um "invejável tédio" possível apenas para quem já tem as necessidades básicas garantidas.
(D) Incorreta: Armadilha: Esta alternativa inverte a ideia central do texto. O autor sugere exatamente o contrário: que a arte europeia, nesse contexto, se ocupa de problemas existenciais porque os personagens (e, por extensão, os cineastas) estão livres de problemas socioeconômicos, enquanto as preocupações "nossas" são justamente os problemas práticos e socioeconômicos.
(E) Incorreta: O texto afirma que os filmes "nos distraíam das exigências menores do cotidiano", ou seja, eram uma forma de escapismo e eram relevantes para explorar aflições existenciais. O sarcasmo existe, mas não para concluir que o cinema europeu é pouco relevante para esse fim; pelo contrário, ele é relevante, mas o autor questiona o privilégio de poder se dedicar a essas aflições.
Fonte: FCC DPE-RS 2017 Analista - Área Processual (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.