Questão nº 13
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-RS 2017 (nº 13)
Atenção: As questões de números 9 a 15 referem-se ao texto seguinte.
[O invejável tédio europeu]
Os filmes dos cineastas europeus Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman, que a gente via e discutia com tanta seriedade tantos anos atrás, também eram uma forma de escapismo. Tanto quanto o musical e a comédia, aquelas histórias de tédio e indagações existenciais nos distraíam das exigências menores do cotidiano. Fugíamos não para um mundo cor-de-rosa, mas para outro matiz de preto, bem mais fascinante do que o das nossas pequenas aflições. Nenhum dos personagens do italiano Antonioni ou do sueco Bergman, embora enfrentassem seu vazio interior e a frieza de um universo indiferente, parecia ter qualquer problema com o aluguel.
Claro, o deserto emocional em que viviam os personagens do Antonioni, por exemplo, era o deserto metafórico do capitalismo, uma civilização arrasada por si mesma. Mas estavam todos empregados e ganhavam bem. E como era fotogênico o seu suplício. Com Bergman experimentamos o horror de existir, a terrível verdade de que somos uma espécie corrupta sem redenção possível e que a morte torna tudo sem sentido. Hoje suspeitamos de que se Bergman não vivesse na Suécia, com educação, saúde e bem-estar garantidos do ventre até o túmulo, ele não diria isso. É preciso estar livre das dificuldades da vida para poder concluir, com um mínimo de estilo, que a vida é impossível. Tínhamos uma secreta inveja desses europeus tão bem-sucedidos no seu desespero. Não tínhamos a mesma admiração por filmes em que as pessoas se preocupavam não com a ausência de Deus, mas com o pagamento no fim do mês.
Não há equivalência possível entre morrer de tédio e morrer de fome. Mas às vezes eu ainda me pego sonhando em sueco com uma sociedade pronta, sem qualquer destes desafios tropicais, em que a gente pudesse finalmente ser um personagem de Bergman, enojado apenas com tudo e nada mais.
(VERISSIMO, Luis Fernando. Banquete com os deuses. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003, p. 85-86)
Mantém-se correta e coerente com o texto a redação de um segmento, ao se substituir o elemento sublinhado pelo proposto entre parênteses, em:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 9, questão nº 10, questão nº 11, questão nº 12, questão nº 14, questão nº 15.
- ANão há equivalência possível entre morrer de tédio e morrer de fome (contraposição aceitável)
- BTanto quanto o musical e a comédia, aquelas histórias de tédio (...) nos distraíam (Conquanto)
- Csomos uma espécie corrupta sem redenção possível (embora irremissível)
- DÉ preciso estar livre das dificuldades da vida (Impõem-se)
- EMas às vezes eu ainda me pego sonhando em sueco (dou por mim) (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Para substituir uma palavra ou expressão em um texto, é fundamental que a nova opção mantenha o sentido original e a correção gramatical da frase, sem alterar a coerência do parágrafo.
- A) Incorreta: "equivalência possível" significa que há uma correspondência ou semelhança que pode existir. "Contraposição aceitável" significa uma oposição ou contraste que pode ser aceito. Os termos "equivalência" e "contraposição" são antônimos, mudando completamente o sentido da frase.
- B) Incorreta: "Tanto quanto" é uma conjunção comparativa que indica igualdade ou proporção ("assim como", "na mesma medida que"). "Conquanto" é uma conjunção concessiva que introduz uma ideia de ressalva ou oposição ("embora", "ainda que"). A substituição alteraria a relação lógica entre as ideias na frase de comparação para concessão. Esta é a armadilha mais tentadora, pois ambas são conjunções, mas com funções semânticas distintas.
- C) Incorreta: "sem redenção possível" expressa a ausência de qualquer possibilidade de redenção. "embora irremissível" introduz uma concessão ("ainda que seja irremissível") e "irremissível" significa que não pode ser perdoado ou remediado. Embora "irremissível" esteja semanticamente próximo de "sem redenção possível", a estrutura "embora irremissível" muda a construção gramatical e o sentido de uma afirmação direta para uma concessão.
- D) Incorreta: "É preciso" é uma locução verbal impessoal que indica necessidade ("é necessário"). "Impõem-se" é a terceira pessoa do plural do verbo "impor-se", que significa que algo se torna obrigatório ou necessário. A forma plural "Impõem-se" está gramaticalmente incorreta para o contexto, que exige uma forma singular ou impessoal. Mesmo se fosse "Impõe-se", a nuance seria ligeiramente diferente, de uma necessidade impessoal para algo que se impõe.
- (E) Correta: "me pego" e "dou por mim" são expressões idiomáticas sinônimas que significam "surpreender-se fazendo algo" ou "perceber-se em determinada situação". Ambas mantêm o sentido de o narrador se encontrar, inesperadamente, em um estado de sonho ou reflexão, e se encaixam perfeitamente na construção gramatical da frase.
Fonte: FCC DPE-RS 2017 Analista - Área Processual (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.