Questão nº 11
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-RS 2017 (nº 11)
Atenção: As questões de números 9 a 15 referem-se ao texto seguinte.
[O invejável tédio europeu]
Os filmes dos cineastas europeus Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman, que a gente via e discutia com tanta seriedade tantos anos atrás, também eram uma forma de escapismo. Tanto quanto o musical e a comédia, aquelas histórias de tédio e indagações existenciais nos distraíam das exigências menores do cotidiano. Fugíamos não para um mundo cor-de-rosa, mas para outro matiz de preto, bem mais fascinante do que o das nossas pequenas aflições. Nenhum dos personagens do italiano Antonioni ou do sueco Bergman, embora enfrentassem seu vazio interior e a frieza de um universo indiferente, parecia ter qualquer problema com o aluguel.
Claro, o deserto emocional em que viviam os personagens do Antonioni, por exemplo, era o deserto metafórico do capitalismo, uma civilização arrasada por si mesma. Mas estavam todos empregados e ganhavam bem. E como era fotogênico o seu suplício. Com Bergman experimentamos o horror de existir, a terrível verdade de que somos uma espécie corrupta sem redenção possível e que a morte torna tudo sem sentido. Hoje suspeitamos de que se Bergman não vivesse na Suécia, com educação, saúde e bem-estar garantidos do ventre até o túmulo, ele não diria isso. É preciso estar livre das dificuldades da vida para poder concluir, com um mínimo de estilo, que a vida é impossível. Tínhamos uma secreta inveja desses europeus tão bem-sucedidos no seu desespero. Não tínhamos a mesma admiração por filmes em que as pessoas se preocupavam não com a ausência de Deus, mas com o pagamento no fim do mês.
Não há equivalência possível entre morrer de tédio e morrer de fome. Mas às vezes eu ainda me pego sonhando em sueco com uma sociedade pronta, sem qualquer destes desafios tropicais, em que a gente pudesse finalmente ser um personagem de Bergman, enojado apenas com tudo e nada mais.
(VERISSIMO, Luis Fernando. Banquete com os deuses. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003, p. 85-86)
No segundo parágrafo do texto, o segmento
Este texto de apoio vale também pra questão nº 9, questão nº 10, questão nº 12, questão nº 13, questão nº 14, questão nº 15.
- Adeserto emocional opõe-se ao que está figurado em deserto metafórico do capitalismo.
- Bcomo era fotogênico o seu suplício ironiza o fato de que um martírio se expunha com preocupação estética. (alternativa correta)
- Cestavam todos empregados e ganhavam bem alude, de fato, à crise econômica do capitalismo.
- Dtão bem-sucedidos no seu desespero é paradoxal quando relacionado a ausência de Deus.
- Elivre das dificuldades da vida expressa a superação europeia dos problemas filosóficos.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Ironia é uma figura de linguagem onde se diz o contrário do que se pensa, geralmente com intenção crítica ou humorística, criando um contraste entre o que é dito e a realidade.
- (A) Incorreta: O texto afirma que o "deserto emocional" era o "deserto metafórico do capitalismo", indicando uma equivalência ou identificação, e não uma oposição.
- (B) Correta: A expressão "como era fotogênico o seu suplício" é irônica porque "suplício" (sofrimento intenso) é algo doloroso e não deveria ser "fotogênico" (esteticamente agradável). A ironia reside na crítica ao fato de que o sofrimento existencial dos personagens era retratado de forma tão estilizada e visualmente atraente, quase glamourosa, que se tornava uma preocupação estética, distanciando-o da crueza do sofrimento real.
- (C) Incorreta: A frase "estavam todos empregados e ganhavam bem" é usada para contrastar a situação dos personagens com a crise econômica, mostrando que seus problemas não eram financeiros, mas existenciais.
- (D) Incorreta: Embora "tão bem-sucedidos no seu desespero" seja um paradoxo, a alternativa o relaciona diretamente à "ausência de Deus", o que não é o foco principal da frase no contexto. A frase destaca a capacidade de se dar ao luxo do desespero existencial por não ter problemas materiais, e não a causa desse desespero ser a ausência de Deus.
- (E) Incorreta: Estar "livre das dificuldades da vida" (dificuldades materiais) não significa superação de problemas filosóficos. Pelo contrário, o texto sugere que essa liberdade material permite que se contemplem e se aprofundem em problemas filosóficos, como a ideia de que a vida é impossível.
Fonte: FCC DPE-RS 2017 Analista - Área Processual (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.