Questão nº 14
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-RS 2017 (nº 14)
Atenção: As questões de números 9 a 15 referem-se ao texto seguinte.
[O invejável tédio europeu]
Os filmes dos cineastas europeus Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman, que a gente via e discutia com tanta seriedade tantos anos atrás, também eram uma forma de escapismo. Tanto quanto o musical e a comédia, aquelas histórias de tédio e indagações existenciais nos distraíam das exigências menores do cotidiano. Fugíamos não para um mundo cor-de-rosa, mas para outro matiz de preto, bem mais fascinante do que o das nossas pequenas aflições. Nenhum dos personagens do italiano Antonioni ou do sueco Bergman, embora enfrentassem seu vazio interior e a frieza de um universo indiferente, parecia ter qualquer problema com o aluguel.
Claro, o deserto emocional em que viviam os personagens do Antonioni, por exemplo, era o deserto metafórico do capitalismo, uma civilização arrasada por si mesma. Mas estavam todos empregados e ganhavam bem. E como era fotogênico o seu suplício. Com Bergman experimentamos o horror de existir, a terrível verdade de que somos uma espécie corrupta sem redenção possível e que a morte torna tudo sem sentido. Hoje suspeitamos de que se Bergman não vivesse na Suécia, com educação, saúde e bem-estar garantidos do ventre até o túmulo, ele não diria isso. É preciso estar livre das dificuldades da vida para poder concluir, com um mínimo de estilo, que a vida é impossível. Tínhamos uma secreta inveja desses europeus tão bem-sucedidos no seu desespero. Não tínhamos a mesma admiração por filmes em que as pessoas se preocupavam não com a ausência de Deus, mas com o pagamento no fim do mês.
Não há equivalência possível entre morrer de tédio e morrer de fome. Mas às vezes eu ainda me pego sonhando em sueco com uma sociedade pronta, sem qualquer destes desafios tropicais, em que a gente pudesse finalmente ser um personagem de Bergman, enojado apenas com tudo e nada mais.
(VERISSIMO, Luis Fernando. Banquete com os deuses. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003, p. 85-86)
Está correto o emprego do segmento sublinhado na frase:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 9, questão nº 10, questão nº 11, questão nº 12, questão nº 13, questão nº 15.
- AOs filmes clássicos, que se discutia nos cineclubes, eram sobretudo europeus.
- BQuanto às obras primas do cinema europeu, não havia quem lhes deixasse de dar atenção. (alternativa correta)
- CO autor do texto prefere mais o cinema europeu do que o nosso.
- DNos filmes de Bergman, que a genialidade era indiscutível, imperavam minutos de silêncio.
- EO vazio interior era um tema previlegiado nos grandes filmes de Antonioni.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Regência é a relação de dependência que existe entre uma palavra (verbo ou nome) e seu complemento, que muitas vezes exige o uso de preposições específicas.
- (A) Incorreta: O verbo "discutir", no sentido de debater, é transitivo direto. O "se" é partícula apassivadora, e o verbo deve concordar com o sujeito paciente "que" (referente a "Os filmes clássicos", plural). O correto seria "se discutiam".
- (B) Correta: A expressão "dar atenção" é transitiva indireta, exigindo a preposição "a" (dar atenção a algo/alguém). O pronome "lhes" substitui corretamente o objeto indireto "às obras primas do cinema europeu" (a elas), mantendo a regência.
- (C) Incorreta: O verbo "preferir" já expressa a ideia de preferência e sua regência padrão é "preferir algo a outra coisa". O uso de "mais... do que" é pleonástico e inadequado. O correto seria "prefere o cinema europeu ao nosso".
- (D) Incorreta: O pronome relativo "que" está sendo usado para expressar posse ("a genialidade de Bergman"). Para indicar posse, o pronome relativo adequado é "cuja" (ou "cujo", "cujas", "cujos"). O correto seria "Nos filmes de Bergman, cuja genialidade era indiscutível...".
- (E) Incorreta: Há um erro de ortografia. A grafia correta da palavra é "privilegiado", com "i" após o "v".
Fonte: FCC DPE-RS 2017 Analista - Área Processual (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.