Questão nº 12
Questão de Língua Portuguesa · FCC DPE-RS 2017 (nº 12)
Atenção: As questões de números 9 a 15 referem-se ao texto seguinte.
[O invejável tédio europeu]
Os filmes dos cineastas europeus Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman, que a gente via e discutia com tanta seriedade tantos anos atrás, também eram uma forma de escapismo. Tanto quanto o musical e a comédia, aquelas histórias de tédio e indagações existenciais nos distraíam das exigências menores do cotidiano. Fugíamos não para um mundo cor-de-rosa, mas para outro matiz de preto, bem mais fascinante do que o das nossas pequenas aflições. Nenhum dos personagens do italiano Antonioni ou do sueco Bergman, embora enfrentassem seu vazio interior e a frieza de um universo indiferente, parecia ter qualquer problema com o aluguel.
Claro, o deserto emocional em que viviam os personagens do Antonioni, por exemplo, era o deserto metafórico do capitalismo, uma civilização arrasada por si mesma. Mas estavam todos empregados e ganhavam bem. E como era fotogênico o seu suplício. Com Bergman experimentamos o horror de existir, a terrível verdade de que somos uma espécie corrupta sem redenção possível e que a morte torna tudo sem sentido. Hoje suspeitamos de que se Bergman não vivesse na Suécia, com educação, saúde e bem-estar garantidos do ventre até o túmulo, ele não diria isso. É preciso estar livre das dificuldades da vida para poder concluir, com um mínimo de estilo, que a vida é impossível. Tínhamos uma secreta inveja desses europeus tão bem-sucedidos no seu desespero. Não tínhamos a mesma admiração por filmes em que as pessoas se preocupavam não com a ausência de Deus, mas com o pagamento no fim do mês.
Não há equivalência possível entre morrer de tédio e morrer de fome. Mas às vezes eu ainda me pego sonhando em sueco com uma sociedade pronta, sem qualquer destes desafios tropicais, em que a gente pudesse finalmente ser um personagem de Bergman, enojado apenas com tudo e nada mais.
(VERISSIMO, Luis Fernando. Banquete com os deuses. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003, p. 85-86)
O verbo indicado entre parênteses deve flexionar-se de modo a concordar com o termo sublinhado na frase:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 9, questão nº 10, questão nº 11, questão nº 13, questão nº 14, questão nº 15.
- ANos filmes de Bergman e Antonioni (transparecer) a preocupação europeia com as altas questões existenciais.
- BTanto os musicais como os filmes de Bergman (poder) incutir uma sensação de escapismo no espectador.
- CAos personagens de Antonioni não (caber) preocupar-se com as contas no fim do mês.
- DAs dificuldades da vida prática, sobretudo em nosso tempo, não (permitir) pensar nas questões metafísicas.
- ENossa admiração por aqueles grandes cineastas europeus (fazer) esquecer nossos conflitos cotidianos. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Concordância verbal é a regra que exige que o verbo (a ação) combine em número (singular ou plural) e pessoa (quem pratica a ação) com o seu sujeito (quem realiza ou sofre a ação). Para aplicar a concordância corretamente, o primeiro passo é sempre identificar o sujeito do verbo.
- (A) Incorreta: O termo sublinhado "filmes" não é o sujeito do verbo "transparecer". O sujeito é "a preocupação europeia...", cujo núcleo é "preocupação" (singular). Assim, o verbo deveria ser "transparece". A armadilha aqui é que "filmes" (plural) aparece antes do verbo, podendo levar à confusão de que seria o sujeito, mas ele é parte de um adjunto adverbial de lugar.
- (B) Incorreta: O termo sublinhado "sensação" não é o sujeito do verbo "poder". O sujeito é "Tanto os musicais como os filmes de Bergman" (composto, plural). Assim, o verbo deveria ser "podem".
- (C) Incorreta: O termo sublinhado "personagens" não é o sujeito do verbo "caber". O sujeito é a oração "preocupar-se com as contas no fim do mês" (oração substantiva subjetiva, que funciona como singular). Assim, o verbo deveria ser "cabe".
- (D) Incorreta: O termo sublinhado "vida" não é o sujeito do verbo "permitir". O sujeito é "As dificuldades da vida prática...", cujo núcleo é "dificuldades" (plural). Assim, o verbo deveria ser "permitem".
- (E) Correta: O termo sublinhado "admiração" é o núcleo do sujeito da oração ("Nossa admiração por aqueles grandes cineastas europeus"). Como "admiração" está no singular, o verbo "fazer" deve flexionar-se para a 3ª pessoa do singular, tornando-se "faz", concordando corretamente com o termo sublinhado.
Fonte: FCC DPE-RS 2017 Analista - Área Processual (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.