Questão nº 10
Questão de Língua Portuguesa · FCC CBM-BA 2023 (nº 10)
Medo da eternidade
Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
– Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
– Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.
– Não acaba nunca, e pronto.
Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.
Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
– E agora que é que eu faço? – perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.
– Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
– Acabou-se o docinho. E agora?
– Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
– Olha só o que me aconteceu! – disse eu em fingidos espanto e tristeza. – Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
– Já lhe disse – repetiu minha irmã – que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.
(LISPECTOR, Clarice. Jornal do Brasil, 06 de jun. de 1970)
A presença de acento grave em Mas a gente às vezes perde (18º parágrafo) deve-se ao fato de que se usa sinal indicativo de crase
- Aem locuções adverbiais femininas com substantivos no singular ou no plural. (alternativa correta)
- Bantes de palavra feminina com sentido genérico.
- Cantes de numerais.
- Dpara marcar a junção da preposição a e um artigo qualquer.
- Esempre que um substantivo feminino for antecedido por um artigo feminino.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A crase é a fusão da preposição 'a' com o artigo definido feminino 'a' (ou 'as'), ou com pronomes demonstrativos iniciados por 'a'. Ela é obrigatória em locuções adverbiais femininas, que são expressões fixas que indicam tempo, modo ou lugar, como "às vezes", "à noite", "à moda de".
- (A) Correta: A expressão "às vezes" é uma locução adverbial feminina de tempo. Nesses casos, o uso do sinal indicativo de crase é obrigatório, independentemente de o substantivo estar no singular ou no plural.
- (B) Incorreta: A crase não é usada antes de palavra feminina com sentido genérico quando não há um termo regente que exija a preposição 'a' (ex: "Gosto de carne"). Em "às vezes", a crase ocorre porque é uma locução adverbial fixa, não por "vezes" ser um substantivo feminino genérico.
- (C) Incorreta: "Vezes" não é um numeral. A crase pode ocorrer antes de numerais que indicam horas (ex: "às 10h") ou em algumas locuções (ex: "às centenas"), mas essa não é a regra aplicável aqui.
- (D) Incorreta: Embora "às" seja a junção da preposição 'a' com o artigo 'as', a alternativa é imprecisa ao dizer "um artigo qualquer". A crase só ocorre com o artigo definido feminino 'a' (ou 'as'). Além disso, o motivo principal para a crase em "às vezes" é o fato de ser uma locução adverbial feminina, uma regra específica que torna a crase obrigatória nessas expressões. Esta alternativa é a mais tentadora, pois descreve a formação de "às", mas não o motivo específico da crase em locuções adverbiais.
- (E) Incorreta: O simples fato de um substantivo feminino ser antecedido por um artigo feminino não garante a crase. É preciso que haja também uma preposição 'a' exigida por um termo anterior (ex: "Vou à praia" = "Vou a" + "a praia"). Em "às vezes", a crase se dá pela regra das locuções adverbiais femininas, que é mais abrangente.
Fonte: FCC CBM-BA 2023 Soldado do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBMBA) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.