Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC CBM-BA 2023 (nº 4)
Medo da eternidade
Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
– Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
– Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.
– Não acaba nunca, e pronto.
Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.
Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
– E agora que é que eu faço? – perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.
– Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
– Acabou-se o docinho. E agora?
– Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
– Olha só o que me aconteceu! – disse eu em fingidos espanto e tristeza. – Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
– Já lhe disse – repetiu minha irmã – que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.
(LISPECTOR, Clarice. Jornal do Brasil, 06 de jun. de 1970)
Leia as seguintes afirmações a respeito do texto.
I. Os chicles continuam doces mesmo após se transformarem em puxa-puxa.
II. Os chicles podem ser pregados na cama para que não sejam engolidos durante o sono.
III. O docinho dos chicles é melhor do que o das balas.
IV. Para algumas crianças, os chicles funcionam como uma bala eterna.
De acordo com o texto, estão corretas APENAS as afirmações:
- AI e III.
- BII e III.
- CII e IV. (alternativa correta)
- DII, III e IV.
- EI, II e III.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Conceito-chave: A questão pede para você julgar cada afirmação apenas com base no que o texto diz, não com base no que você sabe sobre chicles na vida real. A pegadinha clássica é misturar informação externa (como o gosto do chiclete) com a informação do texto.
(A) Incorreta: O texto diz explicitamente que, depois de mastigado, o chicle vira um "puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada", ou seja, o doce acaba.
(B) Incorreta: A afirmação II é verdadeira, mas a alternativa B junta a II com a III, que é falsa. O texto diz que o docinho do chicle era "bonzinho, não podia dizer que era ótimo", e não faz comparação com balas.
(C) Correta: A afirmação II está correta: a irmã diz "para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama". A afirmação IV está correta: a irmã diz que a bala "dura a vida inteira", e a narradora a chama de "elixir do longo prazer", ou seja, para ela, era uma bala eterna. As afirmações I e III são falsas, então apenas II e IV estão certas.
(D) Incorreta: A afirmação III é falsa, pois o texto não compara o gosto do chicle com o de balas; além disso, a narradora acha o gosto do chicle apenas "bonzinho", não melhor.
(E) Incorreta: A afirmação I é falsa, pois o texto afirma que o chicle mastigado "não tinha gosto de nada", e a III também é falsa, pois não há comparação com balas.
Fonte: FCC CBM-BA 2023 Soldado do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBMBA) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.