Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC CBM-BA 2023 (nº 2)
Medo da eternidade
Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
– Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
– Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.
– Não acaba nunca, e pronto.
Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.
Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
– E agora que é que eu faço? – perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.
– Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
– Acabou-se o docinho. E agora?
– Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
– Olha só o que me aconteceu! – disse eu em fingidos espanto e tristeza. – Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
– Já lhe disse – repetiu minha irmã – que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.
(LISPECTOR, Clarice. Jornal do Brasil, 06 de jun. de 1970)
A narradora compara explicitamente a sua experiência com o chicle a uma narrativa fantasiosa no seguinte trecho:
- APerder a eternidade? Nunca. (10º parágrafo)
- Bparecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. (6º parágrafo) (alternativa correta)
- CE a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo (14º parágrafo)
- DQuando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles (1º parágrafo)
- EExaminei-a, quase não podia acreditar no milagre. (6º parágrafo)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Localizar informação no texto significa encontrar a parte exata do texto que responde à pergunta, sem inferências ou interpretações adicionais. A questão pede uma comparação explícita da experiência com o chicle a uma narrativa fantasiosa.
(A) Incorreta: Esta frase expressa uma forte emoção ou determinação da narradora em relação à suposta eternidade do chicle, mas não é uma comparação a uma narrativa fantasiosa.
(B) Correta: Esta alternativa apresenta a frase em que a narradora compara diretamente sua sensação e experiência com o chicle a ser "transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas", que é uma referência clara e explícita a uma narrativa fantasiosa.
(C) Incorreta: Esta frase descreve um sentimento (medo) que a narradora experimenta em relação à ideia de eternidade do chicle. Embora a eternidade possa ser um tema em narrativas fantasiosas, a frase em si não é uma comparação explícita da experiência a uma narrativa fantasiosa, mas sim a descrição de uma emoção. A armadilha aqui é que "eternidade" soa grandioso e quase fantasioso, mas a frase descreve um sentimento sobre a eternidade, não uma comparação da situação a um tipo de história.
(D) Incorreta: Esta frase é uma informação factual sobre o passado da narradora e sua falta de experiência com chicles, não uma comparação a uma narrativa fantasiosa.
(E) Incorreta: Esta frase expressa o espanto e a dificuldade da narradora em acreditar na característica "milagrosa" do chicle. Embora "milagre" tenha conotação de algo extraordinário ou fantasioso, a frase não compara a experiência a uma narrativa fantasiosa de forma explícita, como faz a alternativa B.
Fonte: FCC CBM-BA 2023 Soldado do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBMBA) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.