Questão nº 5

Questão de Língua Portuguesa · FCC CBM-BA 2023 (nº 5)

FCC2023Soldado do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBMBA)Língua Portuguesa
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Medo da eternidade

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

– Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.

– Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.

– Não acaba nunca, e pronto.

Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

– E agora que é que eu faço? – perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.

– Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

– Acabou-se o docinho. E agora?

– Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

– Olha só o que me aconteceu! – disse eu em fingidos espanto e tristeza. – Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

– Já lhe disse – repetiu minha irmã – que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

(LISPECTOR, Clarice. Jornal do Brasil, 06 de jun. de 1970)


No 14º parágrafo, a narradora afirma que a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.

Depreende-se da leitura do texto que ela fez essa afirmação porque

Resposta comentada

Gabarito Alternativa A

Inferência textual é a habilidade de compreender o que está implícito em um texto, ou seja, deduzir informações que não foram ditas de forma direta, mas que podem ser concluídas a partir das pistas e do contexto fornecidos. É como "ler nas entrelinhas" para chegar a uma conclusão lógica.

  • (A) Correta: A narradora percebe que a experiência de mascar o chicle se tornou desagradável ("não estava gostando do gosto") e a ideia de que essa experiência duraria para sempre ("bala eterna") a encheu de medo. O alívio que ela sente ao se livrar do chicle confirma que é bom que experiências não prazerosas tenham um fim.
  • (B) Incorreta: A afirmação sobre o medo da eternidade ocorre quando ela ainda está mascando o chicle e sentindo-se contrafeita com o gosto. A mentira para a irmã e o sentimento de vergonha vêm depois, como uma consequência de seu desejo de se livrar da experiência eterna e desagradável, não como a causa do medo inicial da eternidade. Esta é uma armadilha da banca porque mistura eventos e sentimentos que ocorrem em momentos diferentes e com causas distintas. O medo da eternidade está ligado à experiência do chicle, não à mentira.
  • (C) Incorreta: O texto não menciona o desejo de experimentar outros sabores de chicle. O problema da narradora é com a eternidade daquele chicle específico, que se tornou insípido e borrachudo.
  • (D) Incorreta: Embora ela queira parar de mascar o chicle, a questão não é que ela prefira "balas" em geral. O contraste é entre a expectativa mágica do chicle eterno e a realidade de uma experiência prolongada e sem gosto, que se tornou aflitiva.
  • (E) Incorreta: A narradora, na verdade, fazia o oposto: ela mesma tirava balas da boca para fazê-las durar mais, o que indica que ela compreendia e praticava o prolongamento de experiências prazerosas. O problema com o chicle é que a experiência se tornou desprazerosa e eterna.

Fonte: FCC CBM-BA 2023 Soldado do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBMBA) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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