Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · FCC CBM-BA 2023 (nº 3)
Medo da eternidade
Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
– Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
– Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.
– Não acaba nunca, e pronto.
Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.
Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
– E agora que é que eu faço? – perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.
– Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
– Acabou-se o docinho. E agora?
– Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
– Olha só o que me aconteceu! – disse eu em fingidos espanto e tristeza. – Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
– Já lhe disse – repetiu minha irmã – que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.
(LISPECTOR, Clarice. Jornal do Brasil, 06 de jun. de 1970)
A narradora considera que seu contato com a eternidade, ocorrido a partir da experiência de mascar um chicle, foi aflitivo e dramático porque ela
- Aperdeu o chicle no chão de areia, no portão da escola, e nunca mais poderia dar continuidade àquela experiência.
- Bnão queria compartilhar os seus chicles com a irmã, que lhe ensinara a apreciá-los.
- Cteve que mentir para a irmã e esconder dela o que sentiu, já que, a seu ver, essa experiência não foi nada prazerosa. (alternativa correta)
- Dnão tinha dinheiro para comprar chicles, o que a tornava dependente da irmã para comprá-los.
- Esempre teve medo da eternidade e nunca tinha compartilhado esse segredo com ninguém.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
A questão pede a identificação da causa principal para a narradora ter considerado seu contato com a eternidade como "aflitivo e dramático", exigindo uma compreensão aprofundada das emoções e motivações expressas no texto.
- (A) Incorreta: Perder o chicle foi uma consequência da aflição da narradora, uma forma que ela encontrou para se livrar da experiência desagradável, e não a causa da aflição em si. Ela fingiu espanto e tristeza.
- (B) Incorreta: O texto não menciona qualquer relutância da narradora em compartilhar chicles; na verdade, foi a irmã quem lhe deu o chicle.
- (C) Correta: A narradora expressa claramente que "não estava gostando do gosto" e que a "vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo", sentindo "aflição". Sua mentira e o alívio posterior ("Sem o peso da eternidade sobre mim") confirmam que a experiência não foi prazerosa e que ela precisou esconder isso da irmã.
- (D) Incorreta: A falta de dinheiro para comprar chicles é um detalhe inicial que contextualiza a novidade do produto, mas não é a razão pela qual a experiência de mascar o chicle se tornou aflitiva e dramática.
- (E) Incorreta: O texto indica que o medo surgiu durante a experiência com o chicle ("me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade"), e não que ela já possuía esse medo como um segredo guardado.
Fonte: FCC CBM-BA 2023 Soldado do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBMBA) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.