Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · FCC CBM-BA 2023 (nº 8)
Medo da eternidade
Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade. Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
– Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira.
– Como não acaba? – Parei um instante na rua, perplexa.
– Não acaba nunca, e pronto.
Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.
Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
– E agora que é que eu faço? – perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.
– Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
– Acabou-se o docinho. E agora?
– Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
– Olha só o que me aconteceu! – disse eu em fingidos espanto e tristeza. – Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
– Já lhe disse – repetiu minha irmã – que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra da boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.
(LISPECTOR, Clarice. Jornal do Brasil, 06 de jun. de 1970)
Está gramaticalmente correta a redação da seguinte frase:
- AMinha irmã, sempre muito animada queria eu que tivesse essa nova experiência.
- BFoi assim que percebi: o chicle a que mascava perdia o gosto pouco-a-pouco.
- CTodo mundo gostavam de chicles, mesmo ele sendo mais caro.
- DVários amigos, cujos irmãos deixaram de comprar balas, passaram a mascar chicles. (alternativa correta)
- EEu queria experimentar os chicles, mesmo que o medo me domina-se.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
O pronome relativo é uma palavra que liga duas orações, substituindo um termo da oração anterior e evitando repetição, ao mesmo tempo que introduz uma oração subordinada adjetiva. Os principais pronomes relativos são: que, quem, cujo(a)(s), onde, como, quando, quanto(a)(s).
- (A) Incorreta: A construção "queria eu que tivesse" é gramaticalmente confusa e não faz sentido no contexto. A frase deveria ser "Minha irmã... queria que eu tivesse..." ou "Eu queria que minha irmã tivesse...".
- (B) Incorreta: O verbo "mascar" (mastigar) é transitivo direto, não exigindo a preposição "a" antes do pronome relativo. O correto seria "o chicle que mascava". Além disso, a expressão correta é "pouco a pouco" (sem hífen).
- (C) Incorreta: Há erro de concordância verbal ("Todo mundo gostavam" deveria ser "Todo mundo gostava") e de concordância nominal ("mesmo ele sendo mais caro" deveria ser "mesmo eles sendo mais caros", referindo-se a "chicles").
- (D) Correta: O pronome relativo "cujos" está empregado corretamente, indicando posse ("irmãos de vários amigos") e concordando em gênero e número com o substantivo que o segue ("irmãos"). A concordância verbal também está correta.
- (E) Incorreta: A conjunção "mesmo que" exige o modo subjuntivo. O correto seria "mesmo que o medo me dominasse" (imperfeito do subjuntivo), e não "domina-se". A terminação "-se" do imperfeito do subjuntivo é uma armadilha comum, pois se confunde com o pronome "se".
Fonte: FCC CBM-BA 2023 Soldado do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBMBA) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.