Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE SEFAZ-RJ Auditor 2025 - Específicos II (nº 8)
Texto 2A1-I
Nunca gostei do excesso de realidade presente na boca
dos arautos que falam sobre o Rio, seja em mesa de bar,
entrevista de canal a cabo ou seminário de universitárias
charmosas. Na cidade, eu procuro a ficção.Não se trata de inventar histórias, nem de negar-se ao
mundo, aos objetos e às relações formativas desta civilização
carioca. Trata-se de fruir, de buscar ao longo do dia o direito a
esse instante. Ele é possível até mesmo sob o sol a pino, quando
você é um camelô e arruma fileiras amarelas e vermelhas de
bombons Serenata de Amor sobre a lona de plástico azul na
calçada, imitando a vitrine da loja de roupa de grife atrás.Neste momento, você deve negar-se a qualquer
entendimento sociológico da vida deste rapaz que produza
compaixão, pois logo em seguida ele vai oferecer três bombons
por um real com uma voz anasalada, num pregão que lembra o
negro que vendia cocada em Dom Casmurro. Ele sabe que a
forma de executar o pregão é decisiva para que você compre ou
não o bombom. Mesmo sem ter lido Machado, ele já se
apropriou das estratégias de ficção.Quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô
funcionava, decidi treinar estratégias de ficção com as pessoas
com as quais convivia. Gosto de ver a reação desse carioca diante
de quem faz uso de estratégias ficcionais. Não resisto a uma roda
na rua, principalmente as do Largo da Carioca. Paro sempre para
ver o tipo que ameaça pular no aro de bicicleta com facas
espetadas para a plateia de office-boys e transeuntes diversos. Ele
nunca pula, mas seus gestos e o seu tom de voz são decisivos no
atraso de documentos de escritórios no centro da cidade.Não é fácil negar-se ao excesso de realidade. É preciso
treinamento. Gosto de treinar no carnaval. Gosto de ir a Oswaldo
Cruz. Ligo minha câmera e fico sentado no meio-fio esperando a
performática saída de quase cem bate-bolas de um pequeno
portão de chapa de aço. Eles desfilam cores, bexigadas furiosas
no chão e sons incompreensíveis. Melhor mesmo é estar dentro
desse grupo, usando uma dessas fantasias e participando dessa
saída explosiva. De dentro da máscara, nada ao redor é realidade.
Você escolhe como contar.
No texto 2A1-I, pertencem à mesma classe de palavras os
vocábulos
- A"grife" (último período do segundo parágrafo) e "compre" (penúltimo período do terceiro parágrafo).
- B"presente" (primeiro período do primeiro parágrafo) e "carioca" (primeiro período do segundo parágrafo). (alternativa correta)
- C"anasalada" (primeiro período do terceiro parágrafo) e "cocada" (primeiro período do terceiro parágrafo).
- D"plástico" (último período do segundo parágrafo) e "sociológico" (primeiro período do terceiro parágrafo).
- E"ameaça" (penúltimo período do quarto parágrafo) e "atraso" (último período do quarto parágrafo).
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Conceito-chave: Classe de palavras é o grupo gramatical de um vocábulo (substantivo, adjetivo, verbo, etc.). Para identificar, ignore o significado e foque na função e na forma: o que a palavra modifica, exige ou nomeia no contexto.
- (A) Incorreta: "grife" é substantivo (nomeia uma marca/loja), enquanto "compre" é verbo (forma do verbo comprar, 3ª pessoa do singular do presente do subjuntivo). Classes diferentes.
- (B) Correta: "presente" (em "excesso de realidade presente") é adjetivo (qualifica "realidade", concordando em gênero e número), e "carioca" (em "civilização carioca") também é adjetivo (qualifica "civilização"). Ambos exercem função de atributo, modificando um substantivo. A armadilha da banca aqui é que "carioca" também pode ser substantivo (quando designa a pessoa), mas no contexto do texto ele é adjetivo, pois acompanha o substantivo "civilização".
- (C) Incorreta: "anasalada" é adjetivo (qualifica "voz"), enquanto "cocada" é substantivo (nomeia o doce vendido). Classes diferentes.
- (D) Incorreta: "plástico" é substantivo (nomeia o material da lona), enquanto "sociológico" é adjetivo (qualifica "entendimento"). Classes diferentes.
- (E) Incorreta: "ameaça" é verbo (3ª pessoa do singular do presente do indicativo, de ameaçar), enquanto "atraso" é substantivo (nomeia o atraso de documentos). A pegadinha aqui é que "ameaça" também pode ser substantivo, mas no texto ele é verbo, pois concorda com o sujeito "o tipo".
Fonte: CEBRASPE SEFAZ-RJ Auditor 2025 - Específicos II Auditor Fiscal da Receita Estadual (Caderno Conhecimentos Específicos II). Reproduzida para fins de estudo.