Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE SEFAZ-RJ Auditor 2025 - Específicos II (nº 6)
Texto 2A1-I
Nunca gostei do excesso de realidade presente na boca
dos arautos que falam sobre o Rio, seja em mesa de bar,
entrevista de canal a cabo ou seminário de universitárias
charmosas. Na cidade, eu procuro a ficção.Não se trata de inventar histórias, nem de negar-se ao
mundo, aos objetos e às relações formativas desta civilização
carioca. Trata-se de fruir, de buscar ao longo do dia o direito a
esse instante. Ele é possível até mesmo sob o sol a pino, quando
você é um camelô e arruma fileiras amarelas e vermelhas de
bombons Serenata de Amor sobre a lona de plástico azul na
calçada, imitando a vitrine da loja de roupa de grife atrás.Neste momento, você deve negar-se a qualquer
entendimento sociológico da vida deste rapaz que produza
compaixão, pois logo em seguida ele vai oferecer três bombons
por um real com uma voz anasalada, num pregão que lembra o
negro que vendia cocada em Dom Casmurro. Ele sabe que a
forma de executar o pregão é decisiva para que você compre ou
não o bombom. Mesmo sem ter lido Machado, ele já se
apropriou das estratégias de ficção.Quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô
funcionava, decidi treinar estratégias de ficção com as pessoas
com as quais convivia. Gosto de ver a reação desse carioca diante
de quem faz uso de estratégias ficcionais. Não resisto a uma roda
na rua, principalmente as do Largo da Carioca. Paro sempre para
ver o tipo que ameaça pular no aro de bicicleta com facas
espetadas para a plateia de office-boys e transeuntes diversos. Ele
nunca pula, mas seus gestos e o seu tom de voz são decisivos no
atraso de documentos de escritórios no centro da cidade.Não é fácil negar-se ao excesso de realidade. É preciso
treinamento. Gosto de treinar no carnaval. Gosto de ir a Oswaldo
Cruz. Ligo minha câmera e fico sentado no meio-fio esperando a
performática saída de quase cem bate-bolas de um pequeno
portão de chapa de aço. Eles desfilam cores, bexigadas furiosas
no chão e sons incompreensíveis. Melhor mesmo é estar dentro
desse grupo, usando uma dessas fantasias e participando dessa
saída explosiva. De dentro da máscara, nada ao redor é realidade.
Você escolhe como contar.
Assinale a opção em que a proposta de substituição apresentada
para termo presente no texto 2A1-I preserva tanto os sentidos
quanto a correção gramatical do texto.
- A"se apropriou" (último período do terceiro parágrafo) por tomou
- B"desfilam" (sexto período do último parágrafo) por se exibem
- C"gostei" (primeiro período do primeiro parágrafo) por apreciei
- D"escolhe" (último período do texto) por se decide
- E"resisto" (terceiro período do quarto parágrafo) por me recuso (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Conceito-chave: A banca testa se você percebe que a substituição precisa manter o mesmo sentido (semântica) e a mesma regência (gramática). "Resistir a" significa "conseguir evitar/controlar um impulso"; "recusar-se a" significa "não aceitar fazer algo". No contexto, "não resisto a uma roda" = "não consigo evitar parar", o que equivale a "não me recuso a parar". A pegadinha é trocar por um sinônimo que muda a regência (ex.: "tomou" não rege "de" como "apropriou-se de") ou que altera o sentido (ex.: "apreciei" é mais forte e menos natural que "gostei").
- (A) Incorreta: "se apropriou" exige a preposição "de" ("apropriou-se de algo"); "tomou" é transitivo direto, sem preposição, quebrando a regência e o sentido de "tomar para si".
- (B) Incorreta: "desfilam" aqui é intransitivo, com sentido de "passam em desfile"; "se exibem" exige reflexividade e muda o foco para "mostrar-se", alterando a imagem do desfile coletivo.
- (C) Incorreta: "gostei" expressa preferência simples; "apreciei" tem sentido de "avaliar/valorizar" ou "degustar", mais forte e formal, não preservando a naturalidade do texto.
- (D) Incorreta: "escolhe" é transitivo direto ("escolhe como contar"); "se decide" exige a preposição "por" ("decide-se por"), além de mudar o sentido de "optar" para "tomar uma resolução".
- (E) Correta: "não resisto a" = "não me recuso a" (ambos regem a preposição "a") e mantêm o sentido de "não consigo evitar"; a troca preserva a gramática e o significado no contexto.
Fonte: CEBRASPE SEFAZ-RJ Auditor 2025 - Específicos II Auditor Fiscal da Receita Estadual (Caderno Conhecimentos Específicos II). Reproduzida para fins de estudo.