Questão nº 1
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE SEFAZ-RJ Auditor 2025 - Específicos II (nº 1)
Texto 2A1-I
Nunca gostei do excesso de realidade presente na boca
dos arautos que falam sobre o Rio, seja em mesa de bar,
entrevista de canal a cabo ou seminário de universitárias
charmosas. Na cidade, eu procuro a ficção.Não se trata de inventar histórias, nem de negar-se ao
mundo, aos objetos e às relações formativas desta civilização
carioca. Trata-se de fruir, de buscar ao longo do dia o direito a
esse instante. Ele é possível até mesmo sob o sol a pino, quando
você é um camelô e arruma fileiras amarelas e vermelhas de
bombons Serenata de Amor sobre a lona de plástico azul na
calçada, imitando a vitrine da loja de roupa de grife atrás.Neste momento, você deve negar-se a qualquer
entendimento sociológico da vida deste rapaz que produza
compaixão, pois logo em seguida ele vai oferecer três bombons
por um real com uma voz anasalada, num pregão que lembra o
negro que vendia cocada em Dom Casmurro. Ele sabe que a
forma de executar o pregão é decisiva para que você compre ou
não o bombom. Mesmo sem ter lido Machado, ele já se
apropriou das estratégias de ficção.Quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô
funcionava, decidi treinar estratégias de ficção com as pessoas
com as quais convivia. Gosto de ver a reação desse carioca diante
de quem faz uso de estratégias ficcionais. Não resisto a uma roda
na rua, principalmente as do Largo da Carioca. Paro sempre para
ver o tipo que ameaça pular no aro de bicicleta com facas
espetadas para a plateia de office-boys e transeuntes diversos. Ele
nunca pula, mas seus gestos e o seu tom de voz são decisivos no
atraso de documentos de escritórios no centro da cidade.Não é fácil negar-se ao excesso de realidade. É preciso
treinamento. Gosto de treinar no carnaval. Gosto de ir a Oswaldo
Cruz. Ligo minha câmera e fico sentado no meio-fio esperando a
performática saída de quase cem bate-bolas de um pequeno
portão de chapa de aço. Eles desfilam cores, bexigadas furiosas
no chão e sons incompreensíveis. Melhor mesmo é estar dentro
desse grupo, usando uma dessas fantasias e participando dessa
saída explosiva. De dentro da máscara, nada ao redor é realidade.
Você escolhe como contar.
No texto 2A1-I, a noção de estratégia de ficção é
- Aexemplificada mais de uma vez ao longo do texto. (alternativa correta)
- Bdescrita como uma habilidade determinante para a formação da identidade carioca.
- Cconceituada de maneira técnica a partir de sua manifestação em uma obra literária.
- Dapresentada como forma de fuga permanente à realidade.
- Elistada como um fenômeno irrefreável que se observa em camadas mais pobres da sociedade.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Conceito-chave: Estratégia de ficção é a habilidade de usar elementos narrativos, gestos e tom de voz para transformar uma situação cotidiana em algo mais atraente ou convincente, sem necessariamente mentir. No texto, o autor mostra que isso não é fuga da realidade, mas uma forma de fruir (aproveitar) o momento, e ele dá vários exemplos disso ao longo do texto.
- (A) Correta: O autor exemplifica a estratégia de ficção mais de uma vez: primeiro com o camelô que imita a vitrine e usa o pregão como Machado de Assis, depois com o homem que ameaça pular no aro de bicicleta no Largo da Carioca, e por fim com os bate-bolas no carnaval de Oswaldo Cruz.
- (B) Incorreta: O texto não diz que a ficção é determinante para a identidade carioca; ele diz que é uma escolha pessoal do autor para lidar com o excesso de realidade, não uma característica definidora de todo carioca.
- (C) Incorreta: A noção não é conceituada de maneira técnica; ela é apresentada de forma intuitiva e ilustrada com exemplos práticos. A referência a Machado de Assis é apenas uma comparação, não uma conceituação a partir de uma obra literária.
- (D) Incorreta: A pegadinha aqui é a palavra "permanente". O autor deixa claro que a ficção é um "instante" possível ao longo do dia, não uma fuga constante ou definitiva da realidade. Ele busca o direito a esse instante, mas não nega o mundo.
- (E) Incorreta: A armadilha é associar a estratégia de ficção apenas a camadas pobres (camelô, bate-bolas). O autor também treina com as pessoas com quem convive (de classe média/universitárias) e afirma que a estratégia funciona com qualquer um, não sendo um fenômeno restrito a uma classe social.
Fonte: CEBRASPE SEFAZ-RJ Auditor 2025 - Específicos II Auditor Fiscal da Receita Estadual (Caderno Conhecimentos Específicos II). Reproduzida para fins de estudo.