Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE SEFAZ-RJ Auditor 2025 - Específicos II (nº 3)
Texto 2A1-I
Nunca gostei do excesso de realidade presente na boca
dos arautos que falam sobre o Rio, seja em mesa de bar,
entrevista de canal a cabo ou seminário de universitárias
charmosas. Na cidade, eu procuro a ficção.Não se trata de inventar histórias, nem de negar-se ao
mundo, aos objetos e às relações formativas desta civilização
carioca. Trata-se de fruir, de buscar ao longo do dia o direito a
esse instante. Ele é possível até mesmo sob o sol a pino, quando
você é um camelô e arruma fileiras amarelas e vermelhas de
bombons Serenata de Amor sobre a lona de plástico azul na
calçada, imitando a vitrine da loja de roupa de grife atrás.Neste momento, você deve negar-se a qualquer
entendimento sociológico da vida deste rapaz que produza
compaixão, pois logo em seguida ele vai oferecer três bombons
por um real com uma voz anasalada, num pregão que lembra o
negro que vendia cocada em Dom Casmurro. Ele sabe que a
forma de executar o pregão é decisiva para que você compre ou
não o bombom. Mesmo sem ter lido Machado, ele já se
apropriou das estratégias de ficção.Quando comecei a perceber que essa estratégia do camelô
funcionava, decidi treinar estratégias de ficção com as pessoas
com as quais convivia. Gosto de ver a reação desse carioca diante
de quem faz uso de estratégias ficcionais. Não resisto a uma roda
na rua, principalmente as do Largo da Carioca. Paro sempre para
ver o tipo que ameaça pular no aro de bicicleta com facas
espetadas para a plateia de office-boys e transeuntes diversos. Ele
nunca pula, mas seus gestos e o seu tom de voz são decisivos no
atraso de documentos de escritórios no centro da cidade.Não é fácil negar-se ao excesso de realidade. É preciso
treinamento. Gosto de treinar no carnaval. Gosto de ir a Oswaldo
Cruz. Ligo minha câmera e fico sentado no meio-fio esperando a
performática saída de quase cem bate-bolas de um pequeno
portão de chapa de aço. Eles desfilam cores, bexigadas furiosas
no chão e sons incompreensíveis. Melhor mesmo é estar dentro
desse grupo, usando uma dessas fantasias e participando dessa
saída explosiva. De dentro da máscara, nada ao redor é realidade.
Você escolhe como contar.
No terceiro parágrafo do texto 2A1-I, o vocábulo "ele" (último
período) retoma, por coesão, o termo
- A"Machado" (terceiro período).
- B"rapaz" (primeiro período). (alternativa correta)
- C"negro" (primeiro período).
- D"bombom" (segundo período).
- E"pregão" (segundo período).
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Coesão referencial é o mecanismo que usa palavras (pronomes, advérbios, etc.) para retomar ou antecipar outras palavras do texto, criando uma "corrente" de sentido. O pronome "ele" só faz sentido se você identificar qual termo veio antes e que combina em gênero e número (masculino, singular) com ele.
- (A) Incorreta: "Machado" é um nome próprio de autor (Machado de Assis), mas o "ele" se refere a quem "se apropriou das estratégias de ficção", que é o camelô, não o escritor.
- (B) Correta: O pronome "ele" retoma "rapaz" (o camelô), pois é o sujeito da ação anterior: "ele já se apropriou das estratégias de ficção" — o rapaz, mesmo sem ler Machado, usa o pregão como ficção.
- (C) Incorreta: "Negro" aparece numa comparação ("lembra o negro que vendia cocada"), mas o "ele" não retoma esse personagem literário; retoma o sujeito real da cena, o camelô.
- (D) Incorreta: "Bombom" é o objeto vendido, não o agente que "se apropriou" de estratégias; o pronome exige um ser capaz de ação, e o bombom é coisa.
- (E) Incorreta: "Pregão" é a forma de vender (o modo como ele fala), mas o "ele" é quem executa o pregão, ou seja, o rapaz; a banca tenta confundir você com um termo próximo no texto, mas a retomada é do sujeito agente.
Fonte: CEBRASPE SEFAZ-RJ Auditor 2025 - Específicos II Auditor Fiscal da Receita Estadual (Caderno Conhecimentos Específicos II). Reproduzida para fins de estudo.