Questão nº 16

Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE IRBR 2025 (nº 16)

CEBRASPE2025Diplomata (Terceiro Secretário)Língua Portuguesa

1888

9 de janeiro

Ora bem, faz hoje um ano que voltei definitivamente da Europa. O que me lembrou esta data foi, estando a beber café, o pregão de um vendedor de vassouras e espanadores: “Vai vassouras! vai espanadores!”. Costumo ouvi-lo outras manhãs, mas desta vez trouxe-me à memória o dia do desembarque, quando cheguei aposentado à minha terra, ao meu Catete, à minha língua. Era o mesmo que ouvi há um ano, em 1887, e talvez fosse a mesma boca. Durante os meus trinta e tantos anos de diplomacia algumas vezes vim ao Brasil, com licença. O mais do tempo vivi fora, em várias partes, e não foi pouco. Cuidei que não acabaria de me habituar novamente a esta outra vida de cá. Pois acabei. Certamente ainda me lembram coisas e pessoas de longe, diversões, paisagens, costumes, mas não morro de saudades por nada. Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei.

Julgue os itens seguintes, com base no texto precedente.


As entradas indicativas de datas, o foco narrativo na primeira pessoa do singular e a ausência de termos figurativos são evidências de que os fatos narrados resultam de memórias factuais, o que caracteriza o texto como não ficcional.

Resposta comentada

O gênero textual (forma de organizar o texto conforme sua função) não se define pelo conteúdo "parecer verdadeiro", mas pela forma como é construído. Um texto pode ter datas, narrador em 1ª pessoa e linguagem sem figuras e ainda assim ser literário/fictício — basta que seja uma construção artística, e não um relato documental verificável. É o caso: o narrador é um personagem criado (Machado de Assis em Memórias Póstumas-era, aqui no conto/diário ficcional), não o autor falando de si.

  • Correta: Errado. Os elementos citados (datas, 1ª pessoa, ausência de figuras) não garantem que os fatos sejam "memórias factuais"; são só marcas de forma, compatíveis com ficção.

O item erra ao afirmar que tais evidências "caracteriza o texto como não ficcional". Datas e narrador em 1ª pessoa aparecem tanto em diários reais quanto em diários ficcionais — o que define ficção é a natureza construída/inventada do enunciado, não o realismo da superfície. Além disso, "ausência de termos figurativos" é falsa como critério: há linguagem figurada no trecho ("morrer de saudades", "a mesma boca"), e mesmo que não houvesse, isso não provaria factualidade.

Como ficaria certo: As datas, o foco narrativo em 1ª pessoa e a linguagem sóbria são apenas recursos de verossimilhança; por si sós, não provam que o texto seja não ficcional — trata-se de narrativa ficcional que simula um diário.

Fonte: CEBRASPE IRBR 2025 Diplomata (Terceiro Secretário). Reproduzida para fins de estudo.

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