Questão nº 15
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE IRBR 2025 (nº 15)
1888
9 de janeiro
Ora bem, faz hoje um ano que voltei definitivamente da Europa. O que me lembrou esta data foi, estando a beber café, o pregão de um vendedor de vassouras e espanadores: “Vai vassouras! vai espanadores!”. Costumo ouvi-lo outras manhãs, mas desta vez trouxe-me à memória o dia do desembarque, quando cheguei aposentado à minha terra, ao meu Catete, à minha língua. Era o mesmo que ouvi há um ano, em 1887, e talvez fosse a mesma boca. Durante os meus trinta e tantos anos de diplomacia algumas vezes vim ao Brasil, com licença. O mais do tempo vivi fora, em várias partes, e não foi pouco. Cuidei que não acabaria de me habituar novamente a esta outra vida de cá. Pois acabei. Certamente ainda me lembram coisas e pessoas de longe, diversões, paisagens, costumes, mas não morro de saudades por nada. Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei.
Julgue os itens seguintes, com base no texto precedente.
A expressão “a mesma boca” (quarto período) desfaz a ambiguidade quanto ao referente do pronome átono em “Costumo ouvi-lo outras manhãs” (terceiro período) e da expressão “o mesmo” em “o mesmo que ouvi há um ano” (quarto período) — que pode ser interpretado como “o pregão” ou “um vendedor de vassouras e espanadores” (ambos no segundo período).
Resposta comentada
Coesão referencial é o "encaixe" entre palavras que retomam outras já ditas no texto — quando esse encaixe é vago, surge ambiguidade (mais de um referente possível). No trecho, "ouvi-lo" e "o mesmo" podem apontar tanto para o pregão quanto para o vendedor, e é a expressão "a mesma boca" que fecha o cerco: ao dizer que talvez fosse "a mesma boca", o narrador ancora o referente no vendedor (a pessoa que fala), não no pregão em si.
- Correta: Certo. "A mesma boca" só pode retomar o vendedor (ser humano que tem boca), eliminando a dupla leitura de "ouvi-lo" e "o mesmo".
Fica de olho: a banca costuma trocar o referente desambiguador — por exemplo, afirmar que "a mesma boca" remete ao pregão (o som ouvido), o que seria impossível, pois pregão não tem boca; ou dizer que a ambiguidade permanece mesmo após a expressão, quando na verdade ela é resolvida.
Fonte: CEBRASPE IRBR 2025 Diplomata (Terceiro Secretário). Reproduzida para fins de estudo.