Questão nº 10

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT9 2022 (nº 10)

FCC2022Analista Judiciário - Área JudiciáriaLíngua Portuguesa
Gabarito: Ever comentário ↓

Vocação e ambição

Machado de Assis tem um conto admirável – “Um homem célebre” – que narra a história de um famoso e prestigiado compositor popular do Rio do século XIX, um tal de Pestana, que em vez de gozar o sucesso de cada uma de suas composições ligeiras e dançantes, vivia atormentado por não compor nada à altura de um Mozart, de um Beethoven. Cada vez que uma composição sua atingia em cheio o gosto popular, o maestro oculto que havia nele sofria o sucesso fácil como uma sentença de morte. Machado resumiu assim a vida dramática desse músico ao mesmo tempo celebrado e infeliz: “Eterna peteca entre a ambição e a vocação”.

A frase é forte: o jogo da peteca realiza o sofrido movimento de pêndulo de cada divisão nossa, que nunca encontra um ponto de equilíbrio. Ser jogado eternamente de um lado para outro, sem repouso, é de enlouquecer. É a oposição contínua entre duas forças que nos dividem e fazem sofrer: a força que está na inclinação natural para atender a uma vocação já instalada em nós e a força pela qual pretendemos atingir uma altura que está longe dos nossos recursos. No caso de Pestana, a aclamação pública que cada música sua atingia não compensava de modo algum a falta de realização de seus mais altos projetos pessoais.

Com esse conto, Machado lembra que há quem não se contente em ser uma celebridade, sobretudo quando julga vazia essa celebração; há ainda quem busque alcançar a aprovação pública pelo valor efetivo de uma mais alta realização criativa. Essa busca, para desgraça nossa, é sofrida, e pode nos levar a dançar de um lado para outro. A saída estaria em identificarmos precisamente qual é a nossa vocação, para estabelecermos a partir dela os contornos da nossa ambição.

(TOLEDO, Cristiano. A publicar)


O drama vivido por Pestana nasce, em grande parte, do fato de que esse compositor

Resposta comentada

Gabarito Alternativa E

O drama de Pestana surge da tensão entre o que ele é (um compositor popular de sucesso) e o que ele aspira ser (um compositor clássico renomado), gerando insatisfação mesmo diante do sucesso.

Conceito-chave: O texto aborda a dissonância entre a vocação (aquilo para o qual se tem inclinação e sucesso) e a ambição (o desejo de alcançar um patamar mais elevado ou diferente), resultando em sofrimento mesmo quando há reconhecimento público.

  • (A) Incorreta: O texto não menciona que ele hesita quanto ao sucesso na composição clássica; ele vive atormentado por não compor à altura de Mozart, indicando uma frustração pela falta de realização, não por hesitação.
  • (B) Incorreta: Não há evidência de que ele "reconheça como provada sua capacidade inata para a música mais alta". Ele tem uma ambição, um "maestro oculto", mas o texto foca na sua aflição por não alcançar essa altura, não por "demorar em reafirmá-la".
  • (C) Incorreta: O texto descreve uma "eterna peteca", um movimento contínuo, não uma troca "definitiva". Ele não se recrimina por ter trocado, mas sim por não conseguir conciliar ou atingir sua aspiração maior.
  • (D) Incorreta: Ele de fato considera que há níveis diferentes (Mozart/Beethoven vs. suas composições ligeiras), mas a afirmação de que "ele não tenha se estabelecido em nenhum deles" é falsa. Ele é um "famoso e prestigiado compositor popular", ou seja, está estabelecido no nível popular.
  • (E) Correta: Pestana hierarquiza a música (Mozart/Beethoven como o topo, suas composições como "ligeiras e dançantes"). Ele sofre porque sua consagração ocorre no nível popular, que, apesar do sucesso, "não compensava de modo algum a falta de realização de seus mais altos projetos pessoais", ou seja, o nível que menos lhe importa para sua realização interna.

Fonte: FCC TRT9 2022 Analista Judiciário - Área Judiciária (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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