Questão nº 14
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT7 2024 (nº 14)
[Vida a compartilhar]
Um jovem amigo meu é uma pessoa exasperada e deprimida. Na semana passada, ele foi atraído por uma história edificante. Uma escola americana dedicara um anfiteatro a uma professora de escola fundamental que, depois de uma longa carreira de ensino, foi paralisada por uma distrofia muscular, e seguiu ensinando. Quando perdeu a voz, passou a ensinar surdos-mudos. Na reportagem, ela estranhava a atenção e os elogios: era uma mulher em paz consigo mesma e com o mundo, sem furores caritativos ou vocações martirológicas. Sua vida parecia simplesmente normal.
Meu jovem amigo comentou que, se estivesse no lugar dela, já teria acabado com sua própria vida. Essa ideia, concordei, passaria por qualquer cabeça. Mas por que a professora não foi por esse caminho? O insuportável numa doença como essa, afirmou então meu interlocutor, são os limites, as impotências.
Observei-lhe então que há uma infinidade de coisas que não conseguimos fazer. Afinal, não sei voar, nem ficar por respirar mais que dois minutos. Com paciência condescendente, meu amigo explicou que essas são coisas que ninguém, ou quase ninguém, consegue fazer. O que dói, acrescentou, é não conseguir fazer as coisas que os outros conseguem. E declarou que, se tivesse uma invalidez grave, talvez pudesse seguir vivendo, mas só entre pessoas tão inválidas quanto ele. Conclusão da conversa: o problema não é a invalidez, o problema são os outros. Melhor dizendo, a necessidade de se comparar aos outros.
De todo modo, ficamos sem apurar que tipo de energia animava aquela prejudicada professora, excepcionalmente apta e disposta a só compartilhar o que tinha de positivo.
(Adaptado de: CALLIGARIS, Contardo. Terra de ninguém. São Paulo: Publifolha, 2004, p. 70-71)
É adequada a articulação entre os tempos e modos verbais na seguinte frase:
- AFicamos sem saber por que vem ela se dedicado a atos virtuosos que sua doença lhe impedisse de haver praticado.
- BQuando perdesse a voz, em função da distrofia que lhe acometeria, ela passará a ensinar surdos e mudos.
- CFora uma mulher em paz consigo mesma, apesar dos sofrimentos que a vida lhe reserve, ao desafiar seus limites.
- DQuando me confessou que se mataria, não me surpreendi e disse que muita gente poderia vir a tomar igual decisão. (alternativa correta)
- ESegundo meu amigo, a dor maior comparece quando nos convencêssemos de que não sejamos os únicos a sofrer.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A correlação verbo-temporal é a relação lógica e gramatical entre os tempos e modos dos verbos em uma frase ou texto, garantindo que as ações sejam situadas corretamente no tempo umas em relação às outras. Para fixar o conceito, imagine uma linha do tempo para cada frase: as ações devem se encaixar de forma coerente, seja no passado, presente ou futuro, e suas relações (simultaneidade, anterioridade, posterioridade, condição) devem ser expressas pelos tempos verbais corretos.
- (A) Incorreta: A construção "vem ela se dedicado" é gramaticalmente inadequada para expressar continuidade. O correto seria "tem se dedicado" (presente perfeito contínuo) ou "vinha se dedicando" (pretérito imperfeito contínuo), o que compromete a correlação com os demais verbos.
- (B) Incorreta: Há uma inconsistência na correlação. "Quando perdesse" (pretérito imperfeito do subjuntivo, indicando uma condição hipotética no passado ou futuro em relação a um passado) não se alinha com "passará" (futuro do presente do indicativo, que expressa uma certeza futura). Se a condição é hipotética no passado ("perdesse"), a consequência deveria ser "passaria" (futuro do pretérito). A armadilha aqui é a mistura de um tempo verbal que expressa uma hipótese passada com um que indica uma certeza futura, quebrando a lógica temporal.
- (C) Incorreta: A correlação está incorreta. "Fora" (pretérito mais-que-perfeito do indicativo, indicando uma ação passada anterior a outra ação passada) não se correlaciona adequadamente com "reserve" (presente do subjuntivo, que expressa possibilidade, desejo ou incerteza no presente ou futuro). Para manter a coerência, o sofrimento deveria ser expresso em um tempo verbal que se relacione ao passado distante de "fora", como "reservava" ou "reservasse".
- (D) Correta: A articulação entre os tempos e modos verbais está adequada. "Confessou", "não me surpreendi" e "disse" estão no pretérito perfeito do indicativo, situando as ações principais no passado. "Se mataria" e "poderia vir a tomar" estão no futuro do pretérito, expressando ações futuras em relação a esse passado, ou seja, o "futuro do passado", o que é gramaticalmente correto e lógico.
- (E) Incorreta: A frase apresenta uma quebra na correlação temporal. "Comparece" (presente do indicativo) não se alinha com "convencêssemos" (pretérito imperfeito do subjuntivo, que indica uma condição ou hipótese no passado) nem com "sejamos" (presente do subjuntivo, que indica possibilidade no presente/futuro). Para manter a coerência com "comparece", as outras ações deveriam estar no presente ("quando nos convencemos de que não somos") ou em um subjuntivo que se alinhe ao presente.
Fonte: FCC TRT7 2024 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 002). Reproduzida para fins de estudo.