Questão nº 9
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT7 2024 (nº 9)
A noção de férias está ligada a figuras de viagem, esporte, aplicações intensivas do corpo, quase nada a descanso. As pessoas executam durante esse intervalo aquilo que não puderam fazer ao longo do ano; fazem "mais" alguma coisa, de sorte que não há férias, no sentido religioso e romano de suspensão de atividades.
Matutando nisso, resolvi tirar férias e gozá-las como devem ser gozadas, sem esforço para torná-las amenas. A ideia de viagem foi expulsa do programa: é das iniciativas mais comprometedoras e tresloucadas que poderia tomar o trabalhador vacante. As viagens ou não existem, como é próprio da era do jato, em que somos transportados em velocidade superior à do nosso poder de percepção e de ruminação de impressões, ou existem demais como burocracia de passaporte, filas, falta de vaga em hotel, atrasos, moeda avitada, alfândega, pneu estourado no ermo, que mais?
Tudo aboli e fiz a experiência das férias propriamente ditas. Se me pedirem para contar o que fiz afinal nestas férias, direi lealmente: ignoro. Aos convites disse não, alegando estar em férias, alegação tão forte como a de estar ocupadíssimo. Durante esse período, o pensamento errou entre mil paragens, não se deteve em nenhuma; cada dia amadureceu e caiu como um fruto. Nada aconteceu? O não acontecimento é a essência das férias. E agora, é trabalhar duro onze meses para merecer as inofensivas e deliciosas férias do não.
(ANDRADE, Carlos Drummond. Cadeira de balanço. 22ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 69-71)
Nada aconteceu? O não acontecimento é a essência das férias.
No trecho acima (3º parágrafo), com as expressões de sentido negativo, o autor pretende
- Arelativizar o valor positivo de uma recusa.
- Bignorar o que há de mal em tirar férias.
- Cressaltar os transtornos de quem não gosta das férias.
- Dironizar quem se ilude com a vantagem de um repouso. (alternativa correta)
- Econtestar a ideia de que as férias exijam sempre grande atividade.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Para entender o sentido de palavras e expressões, é crucial analisar o contexto em que são usadas e o tom do autor. A ironia ocorre quando se expressa algo com um significado oposto ou diferente do que é literalmente dito, muitas vezes com um propósito crítico ou humorístico.
- A) Incorreta: O autor não relativiza a recusa; ele a valoriza como uma justificativa forte para seu tipo de férias. A recusa ("disse não") é um meio para atingir o "não acontecimento", que ele considera a essência.
- B) Incorreta: O autor não ignora os aspectos negativos das férias; ele os descreve detalhadamente (viagens "tresloucadas", burocracia, etc.) e, por isso, escolhe um tipo de férias que os evita.
- C) Incorreta: O autor não ressalta transtornos de quem não gosta de férias. Pelo contrário, ele descreve suas férias como "deliciosas" e "inofensivas", e os transtornos que ele menciona são os das férias convencionais (viagens, atividades), que ele rejeita.
- (D) Correta: O autor, ao perguntar "Nada aconteceu?" e responder "O não acontecimento é a essência das férias", está ironizando a expectativa comum de que as férias devem ser cheias de eventos e atividades. Ele sugere que as pessoas se iludem ao buscar um repouso ativo e cansativo, enquanto o verdadeiro descanso está na ausência de acontecimentos. Ele subverte a ideia de "férias produtivas" e valoriza o "não fazer nada" como a verdadeira vantagem do repouso, zombando sutilmente daqueles que buscam o oposto. A ironia reside no contraste entre a expectativa social (férias = muita coisa acontecendo) e sua própria experiência (férias = nada acontecendo, e isso é bom).
- E) Incorreta: Embora o autor de fato conteste a ideia de que as férias exijam grande atividade (essa é a tese central do texto), a escolha das expressões "Nada aconteceu? O não acontecimento é a essência das férias" vai além de uma simples contestação. A forma retórica da pergunta e a resposta definitiva e provocadora carregam um tom de ironia, que é mais preciso para descrever a intenção do autor nesse trecho específico. Ele não apenas discorda, mas também sugere que a visão oposta é equivocada ou ingênua.
Fonte: FCC TRT7 2024 Conhecimentos Comuns (Analista TRT7 2024) (Caderno Tipo 002). Reproduzida para fins de estudo.