Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT7 2024 (nº 2)
Numa crônica antiga, intitulada "A rotina e a quimera", Carlos Drummond de Andrade considerava o fato de que grandes escritores brasileiros, a começar por Machado de Assis, eram também funcionários públicos. Na lista numerosa, Drummond não incluiu a si mesmo, funcionário que foi de mais de um órgão público. A "rotina" do funcionário, outrora cercado de blocos de papéis, lápis e canetas, muitas vezes levava-o à "quimera", ao universo da ficção e à imaginação criativa.
Mas há também funcionários cuja quimera é, na verdade, a pesquisa histórica. Valem-se de seu talento e de sua disposição para investigar a origem de nomes, de lugares, de fatos primordiais. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Eliézer Rodrigues, veterano assessor de imprensa da Justiça do Trabalho do Ceará. Dedicou-se a pesquisar dados e a escrever um livro - "Praça José de Alencar - Tempos e viventes". Já de si, o título indica o âmbito do livro.
O jornalista escritor resgata os primórdios dessa praça de Fortaleza, quando ainda se chamava Praça do Patrocínio, e aborda os principais acontecimentos que envolveram as edificações e pessoas que já habitaram seu entorno. O prédio da Fênix Caixeiral, a Igreja do Patrocínio, a Escola de Comércio, o Centro Médico, o Instituto de Patrimônio Histórico, o Lord Hotel, o INSS, a Associação Cearense de Imprensa e a 1ª Junta de Conciliação e Julgamento de Fortaleza são algumas das instituições retratadas na obra.
É importante haver cronistas desse porte para que a história de um lugar e de seus personagens se mantenha viva. Políticos, militares, empresários, intelectuais, artistas, músicos, juristas, celebridades, médicos, comerciantes e cidadãos comuns são alguns dos personagens reais que envolvem as tramas retratadas. Até mesmo uma cigana e um fantasma protagonizam causos curiosos.
Vê-se que a "quimera" desse escritor cearense está ancorada em impressões, fatos e pessoas que ele não quis deixar esquecer. É mais que um momento da rotina: é um momento da memória pessoal e social dedicado ao lugar de afeto e de interesse público, a que dá a força de uma permanência temporal.
(SÁ, Herculano Pérez de. Com apoio na página eletrônica https://www.trt7.jus.br. Adaptado)
Contextualizado nesse texto, o gênero da crônica e um atributo do cronista constituem possibilidades reais de se
- Adocumentar com rigor a história de monumentos extintos ou desprestigiados.
- Bexpandir a imaginação para muito além do que seja material ou factual.
- Cadulterar certos fatos passados em benefício de seu sentido no presente.
- Drecortar do tempo e do espaço históricos um sentido social permanente. (alternativa correta)
- Eaglutinar num texto literário memórias fictícias e imagens da vida presente.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A crônica, como gênero textual, permite ao cronista, com sua sensibilidade e olhar particular, selecionar e interpretar fatos, pessoas e lugares do cotidiano ou do passado, conferindo-lhes um significado mais profundo e duradouro para a memória social.
- (A) Incorreta: Embora a crônica possa documentar a história, a alternativa é muito restritiva ("monumentos extintos ou desprestigiados") e não abrange o sentido mais amplo de "memória pessoal e social" e "permanência temporal" que o texto enfatiza.
- (B) Incorreta: Esta alternativa descreve a "quimera" no sentido de ficção pura, que o texto atribui a escritores como Machado de Assis. No entanto, a "quimera" do cronista Eliézer Rodrigues é explicitamente ancorada em "impressões, fatos e pessoas", ou seja, na pesquisa histórica e na realidade, não na expansão para além do factual. Esta é a armadilha da banca, pois confunde os dois tipos de "quimera" apresentados no texto.
- (C) Incorreta: O texto valoriza a pesquisa e o resgate da história ("não quis deixar esquecer"), o que é o oposto de adulterar fatos.
- (D) Correta: O cronista Eliézer Rodrigues "resgata os primórdios dessa praça" (recortar do tempo e do espaço históricos) e seu trabalho é um "momento da memória pessoal e social dedicado ao lugar de afeto e de interesse público, a que dá a força de uma permanência temporal" (um sentido social permanente).
- (E) Incorreta: A obra de Eliézer é baseada em "fatos e pessoas" e "personagens reais", não em "memórias fictícias". O foco principal é no passado do lugar, não primariamente em "imagens da vida presente".
Fonte: FCC TRT7 2024 Conhecimentos Comuns (Analista TRT7 2024) (Caderno Tipo 002). Reproduzida para fins de estudo.